Pedro Magalhães

Margens de Erro

Aleatoriedade e quotas, teoria e prática

Posted January 24th, 2005 at 11:05 am4 Comments

Num post anterior, sobre uma das sondagens realizadas nos últimos tempos, escrevi aqui que "se a amostra foi seleccionada de forma a que os indivíduos que a compõem se distribuam pelo território e em termos das suas características socio-demográficas e socio-políticas (sexo, idade, instrução, actividade e anterior comportamento eleitoral)" a amostra não pode ser aleatória, e terá sim de ser por quotas.

Recebi um comentário onde se aponta uma incorrecção a esta afirmação. Segundo esse comentário, eu estaria a confundir o conceito de "estratificação" com o conceito de "quotas". Estratificar significa dividir a população em sub-grupos na base de uma variável cuja distribuição "real" (na população) se julga conhecer. Mas isso, claro, não impede a selecção aleatória. Significa apenas que, por exemplo, se eu souber que 52% da população é composta por mulheres, eu tenho de me assegurar que 52% da minha amostra é seleccionada aleatoriamente entre as mulheres dessa população, e que 48% será seleccionada aleatoriamente entre os homens dessa população. Isto não é uma amostragem por quotas, mas sim uma amostragem estratificada aleatória.


Pois é, é verdade. Mas gostava de recordar outras coisas que também são verdade. Se eu souber à partida como se distribui territorialmente a população eleitora, eu posso de facto assegurar-me que os inquiridos na minha amostra estão distribuídos de forma proporcional à distribuição da população pelo território, quer faça sondagens telefónicas quer as faça face-a-face. Mas o que sucede quando se trata se seleccionar inquiridos em cada domicílio e garantir ao mesmo tempo que a sua selecção acaba por cumprir critérios socio-demográficos ou socio-políticos de estratificação? Tenho duas hipóteses:

1. Usar um critério aleatório de selecção do inquirido em cada domicílio (o último aniversariante, o próximo aniversariante, ou outro critério qualquer). Se eu fizer isto, mesmo que volte a bater à porta dessa casa ou a telefonar várias vezes para esse número para tentar encontrar o indivíduo aleatoriamente seleccionado sem o substituir por outro, é óbvio que, a certa altura, vou ter de desistir de encontrar todos os aleatoriamente seleccionados. E quando isso acontecer, é altamente improvável que a distribuição da minha amostra por sexo, idade, instrução ou anterior comportamento de voto reflecta a distribuição real da população. Para ser mais concreto, é muito provável que, por exemplo, vá ter menos indivíduos dos 18 aos 34 anos e com mais de 65 anos, assim como menos homens, do que deveria em face da população. Se se considerar que isto é um problema (e pode não ser, depende daquilo que se quer descrever e explicar), é possível "ponderar" os resultados. Ou seja, podem dar-se pesos diferentes a indivíduos com características diferentes de modo a que, na base daquilo que se sabe acerca da população, se possa aumentar aritmeticamente o peso dos grupos sub-representados na amostra e diminuir o peso dos grupos sub-representados.

2. Contudo, pode-se fazer outra coisa. Não sei quais as características de cada pessoa que vive em cada domicílio, nem tenho uma lista de todos os eleitores de acordo com o seu sexo, instrução, idade ou comportamento de voto em eleições anteriores. Mas como sei quais são as características da população a nível agregado (INE, resultados eleitorais), posso estabelecer objectivos, um número de inquiridos que quero ter em cada subcategoria. Posso mesmo começar por usar um critério aleatório de selecção dos inquiridos em cada domicílio. Mas vai chegar uma altura em que já tenho, por exemplo, todos os "homens", com "idades entre os 35 e os 44 anos", com "instrução primária" e que tenham "votado no PS nas eleições anteriores" de que necessito para que a minha amostra represente esse grupo em proporção ao que se conhece da população. E agora: o que sucede quando, aleatoriamente, se volta a encontrar uma pessoa com as mesmas características? Se o incluir na amostra, estou de facto a fazer selecção aleatória, mas vai-me acontecer novamente o que descrevi no ponto anterior. Contudo, posso seguir outro caminho: não o entrevistar, substituindo-o por outro inquirido que tenha as características que me faltam representar na amostra.

Sucede que, esta segunda hipótese - lamento informar- não é amostragem aleatória. É amostragem por quotas. A combinação entre estratificação e aleatoriedade exige que se conheça à partida o estatuto de todos os membros da população nas variáveis de estratificação. Para uma sondagem nacional, isto é (relativamente) fácil de fazer quando se trata de localização territorial, segundo regiões ou dimensão das localidades, por exemplo. Contudo, é impossível de fazer quando se usa, por exemplo, o comportamento de voto anterior como variável de estratificação: não existem listas separadas das pessoas que votaram neste ou naquele partido em 2002, que contenham informação sobre a sua segregação residencial por comportamento de voto, e de onde se possa extrair aleatoriamente os inquiridos em proporção ao seu peso na população. A não ser, claro, que a amostra seja extraída de um painel previamente construído, composto por indivíduos cujas características são conhecidas à partida e na base das quais se possam ir extraindo sub-amostras "aleatórias". Mas se assim fosse, ficaria muito surpreendido (para não dizer chocado) se a ficha técnica da sondagem omitisse essa crucial informação.

Para terminar: não é drama nenhum usar quotas. Há vantagens e desvantagens. E a verdade é que as sondagens tendem a exibir uma combinação de métodos distintos. Mesmo as que usam amostragem por quotas quando se trata de seleccionar inquiridos não deixam de seleccionar domicílios ou localidades aleatoriamente. Os americanos têm enormes preconceito contra as quotas, especialmente desde as catastróficas sondagens que previram a vitória de Dewey sobre Truman em 1948. Mas como assinala um pollster..

"Virtually all public opinion surveys conducted in the United States since then [1948]– whether conducted face-to–face or by telephone – have used some modified version of probability (or random) sampling. Indeed, for American researchers quota sampling is almost a dirty phrase. The situation in Europe has been quite different. The great majority of face-to-face opinion surveys, including election surveys, conducted in France, Germany, Italy, the United Kingdom and other European countries have used some form of quota sampling, with the interviewers given considerable latitude to find and select respondents who fit the quota cells (usually based on sex, age, one or two socio-economic factors and other variables). Giving the interviewers this freedom to select whom to survey is unacceptable in the United States, but the European quota method has worked reasonably well over many years and has been widely accepted, not only by practitioners and their clients but also by many European academic researchers – something which Americans find very puzzling."(1)

O que convém é chamar as coisas pelos nomes que elas têm.


(1)Taylor, H. (1998). "Opinion Polling", in C. McDonald e P. Vangelder (eds.) ESOMAR Handbook of Marketing and Opinion Research, Amsterdam.

by Pedro Magalhães

A "descida" do PS

Posted January 22nd, 2005 at 2:12 pm4 Comments

Com a adição da sondagem da Aximage, a nossa lista de sondagens publicadas fica assim:



Desta vez, não há poll of polls IV. A razão é simples. Da última vez que uma sondagem da Aximage foi divulgada sem ser apresentada a percentagem de indecisos, presumi aqui, para efeitos de comparabilidade com outras sondagens e com os resultados eleitorais, que essa percentagem de indecisos era igual à da sondagem anterior. Contudo, desta vez, o texto diz explicitamente que a percentagem de indecisos diminuiu, mas não sabemos para quanto. Logo, é impossível apresentar os resultados com os indecisos redistribuidos.

Isto implica também que algumas frases no artigo que acompanha a sondagem têm de ser vistas como incorrectas ou, pelo menos, como potencialmente induzindo os leitores em erro. Isso sucede quando se diz, sobre os 7,1% obtidos pelo CDS nesta sondagem, que se trata de "um resultado que coloca o CDS-PP muito próximo dos oito por cento obtidos nas eleições legislativas de 2002"; ou quando, sobre o resultado da CDU (6,2%), se diz ser "um resultado muito semelhante ao obtido nas eleições legislativas de 2002". Quando se escreve assim, está-se a presumir que os resultados da sondagem são comparáveis como resultados eleitorais. Não são. Ao valor de 7,1% do CDS na sondagem corresponde um valor superior em termos de estimativa de intenção de voto. Só não sabemos quão superior, porque a Aximage e o Correio da Manhã não fornecem a informação necessária sobre a percentagem de indecisos.

Dito isto, um dos temas que começa a emergir é o da "descida" do PS. "PS mais longe da maioria", era o destaque de ontem no Correio da Manhã. Na SIC Notícias, Mário Bettencourt Resendes glosava o mesmo tema, falando de "uma descida nas últimas sondagens" para depois parafrasear Mark Twain dizendo que "as notícias da morte política de Santana Lopes são exageradas". E até aqui se sugere a mesma ideia.

Isto é curioso, por diversas razões. Até pode ser verdade que a intenção de voto no PS esteja a diminuir, seja por desmobilização de anteriores apoiantes, seja pela mobilização de anteriores indecisos ou abstencionistas a favor de outros partidos, ou até (menos provável) por transferências do PS para outros partidos. Contudo, a sondagem da Aximage, apesar das aparências, não autoriza essa interpretação. Como se vê no gráfico seguinte, onde as linhas intermitentes marcam as fronteiras superior e inferior das intenções de voto no PS na última sondagem quando se toma em conta a margem de erro amostral com um grau de confiança de 95% (pressupondo que a amostra foi puramente aleatória, o que, ainda por cima, não foi verdade), estes 42,8% podem mesmo significar, na realidade, um aumento em relação as sondagens anteriores (tal como podem significar estabilidade ou até uma descida mais abrupta do que aquela que é directamente visível). A verdade é que, com apenas uma sondagem a indicar uma descida (a não ser que me tenha passado alguma ao lado), a ideia que há uma "descida" do PS carece de qualquer sustentação empírica.



Isto leva-nos para aspectos e discussões mais interessantes do que as ligadas às características técnicas das sondagens ou à sua capacidade para fazer boas inferências descritivas. Esta prevalecente interpretação da sondagem da Aximage como indicando uma descida do PS (tal como a interpretação da anterior sondagem da Eurosondagem sobre a "subida" do BE) corresponde não àquilo que ela diz mas àquilo que os comentadores e analistas acham que está de facto a acontecer (e, nalguns casos, àquilo que desejam que aconteça). Não posso ter a certeza, mas palpita-me que, se a sondagem dissesse o contrário, seria provavelmente desvalorizada, porque não estaria a confirmar aquilo que os observadores da vida política captam com as suas "antenas". E o mais curioso é que, mesmo que acabe por se verificar uma descida do PS, nunca saberemos se ela foi real ou se os votos do PS estavam sobreestimados nas sondagens feitas até agora, ou mesmo se o facto de essa descida ser assim anunciada contribuiu para mudar as expectativas dos eleitores e, logo, as suas intenções de voto (uma self-fulfilling prophecy)

Logo, há muito para discutir sobre as sondagens para além dos seus aspectos técnicos. Mais do que um instrumento de medida da opinião pública, elas devem ser vistas como um fenómeno comunicacional, cujos "números" - seja porque contêm grandes margens de incerteza, seja porque podem ser interpretados de várias formas (algumas erróneas), seja ainda porque diferem de sondagem para sondagem - carecem frequentemente de um sentido objectivo. Elas têm apenas o sentido subjectivo que o discurso dos media lhes quiser dar. E é muito provável que isto tenha consequências reais nos comportamentos.

Mas não me interpretem mal: por acaso, eu também acho que o PS está a descer. Em parte, porque os valores que lhe têm sido atribuídos desde Dezembro têm estado, provavelmente, sobreestimados. E também porque, confesso, Sócrates me faz lembrar Durão Barroso em 2002: "sabe" que vai ganhar, mas desconhece "quanto" poder vai ter, não sabe bem o que vai fazer com ele e aquilo que sabe julga não poder contar a ninguém. E todos nos lembramos como foi a campanha de 2002: uma sondagem da Aximage em Dezembro de 2001 dava nada mais nada menos que 16% de vantagem do PSD sobre o PS...

by Pedro Magalhães

Aximage, 21 de Janeiro

Posted January 22nd, 2005 at 9:05 am4 Comments

Mais uma sondagem, divulgada ontem (6ª feira, dia 21), feita pela Aximage para o Correio da Manhã:

PS: 42,8%
PSD:28,7%
CDS-PP:7,1%
CDU:6,2%
BE:4,3%

A soma dá 89,1%. Faltam aqui 10,9% de os indecisos/"não sabe" e de "outros, brancos e nulos". Quantos de cada? O Correio da Manhã e a Aximage não nos dão o prazer de conhecer essa informação. Sabemos apenas, através do artigo no jornal, que "o número de indecisos baixou", but that's it.

by Pedro Magalhães

O PSD e as sondagens (adenda)

Posted January 20th, 2005 at 2:56 pm4 Comments

Quando falei do assunto aqui, não tinha ainda visto o novo outdoor do PSD com atenção. Agora de passagem na 2ª circular, já o pude ver melhor. De facto, as sondagens usadas são do Expresso. E são-no propositadamente: está lá escrita qualquer coisa como "até o Expresso nos mostra a subir". Está em letra pequenina, sendo também duvidoso que isto passe por algo mais do que uma indecifrável private joke para muitos eleitores, mas pronto. Está resolvido um dos mistérios.

Mas este outdoor continua a ser uma uma espécie de riddle inside a mystery wrapped in an enigma, como o velho Winston dizia da Rússia. Então não é que lá aparece 39,3% como sendo o resultado dado pela sondagem do Expresso em Janeiro de 2005? Que sondagem? Se falamos do resultado do PSD, esta sondagem, publicada a 15 de Janeiro, não foi com certeza. E esta, divulgada uma semana antes, também não. Ou será que o cartaz soma os resultados do PSD e do PP nesta sondagem? Deve ser isso. A conta dá certa, e se não fosse assim os resultados não podiam ser comparados, como o são no cartaz, com os das eleições europeias.

Mas se então é disto que se trata, que parte da "subida" poderá ser atribuída ao PSD ou ao CDS-PP? E o que achará o próprio CDS-PP deste cartaz? Tudo isto é fascinante.

P.S.- Obrigado aos dois leitores que me chamaram a atenção para o assunto.

by Pedro Magalhães

Agradecimentos e mensagens de e-mail

Posted January 19th, 2005 at 3:57 pm4 Comments

Mais menções simpáticas e inclusões em listas de links que gostava de agradecer. Obrigado ao UniverCidade, a O Esquema, ao Any Given Night, à Grande Loja do Queijo Limiano, a O Bico de Gás, a O blogue do Koelhone, ao respublica, ao espiral virtual, ao A ilha do dia antes, ao Universos Críticos, ao A Esquina do Rio, ao Marasmo do Caos, ao portugalidades, ao Portugal dos Pequeninos e ao Quinto Império. Espero não me ter esquecido de ninguém.

Quanto às mensagens, fiz uma promessa que agora constato não poder cumprir (ou não estivéssemos em período eleitoral): a de dar respostas "lentas mas seguras". Lentas certamente, mas seguras...Tenho na caixa algumas dezenas de mensagens às quais, receio, não conseguirei responder individualmente. Mas leio-as todas. Muitas delas vão levantando questões e temas importantes que tentarei discutir aqui. Logo, se tiverem paciência, não desistam.


by Pedro Magalhães

Regra de três, simples (mas longo)

Posted January 19th, 2005 at 10:36 am4 Comments

Num post que coloquei aqui há algum tempo - "Exercício técnico-científico" - sugeri que a projecção de deputados publicada no Expresso no dia 8 de Janeiro não poderia, dada a dimensão da amostra e o seu método de selecção, estar baseada em sub-amostras representativas dos diversos círculos eleitorais. Mas faltou-me explicar como, afinal, a projecção terá sido feita. Na altura não tinha a certeza absoluta, e precisei de fazer umas experiências para confirmar. Mas posso agora dizer-vos com segurança em que consistiu o tal "exercício técnico-científico" do Expresso: numa regra de três simples.

Qualquer pessoa que tenha tempo, paciência e o Excel pode fazer a experiência:

1. Obtenham os resultados dos diversos partidos (pode ser em percentagem) nas eleições de 2002 a nível nacional.

2. Obtenham os resultados dos diversos partidos nas eleições de 2002 em cada um dos círculos eleitorais.

3. Usem os dados de uma sondagem com uma amostra representativa da população eleitora nacional.

4. E agora repitam comigo:
"O resultado do PSD nas eleições de 2002 a nível nacional está para o resultado do PSD nas eleições de 2002 no círculo x como o resultado do PSD na sondagem para as eleições de 2005 estará para o resultado do PSD nas eleições de 2005 no círculo x".

5. Desta forma, temos:

Resultado PSD no círculo x em 2005=Resultado PSD sondagem 2005*Resultado PSD no círculo x em 2002/Resultado PSD a nível nacional em 2002

6. Agora repitam para todos os partidos e para todos os círculos.

7. Na base dos resultados em cada círculo, apliquem o método de Hondt.

8. Somem os deputados.

E já está: uma projecção de deputados na base de uma sondagem sobre intenção de voto nas eleições de 2005 feita a uma amostra representativa do eleitorado nacional. Com a sondagem publicada no Expresso em 8 de Janeiro, a projecção que daqui resulta (sem contar com os círculos Europa e Fora da Europa) é o seguinte:

PS: 118 deputados
PSD: 84 deputados
CDU:12 deputados
CDS: 7 deputados
BE: 5 deputados

Se forem confrontar com o que apareceu no jornal, verificarão que estes resultados encaixam nos intervalos que foram apresentados. Essa apresentação em intervalos resulta, suponho, do facto de, nalguns casos, pequenas variações nas percentagens estimadas para cada círculo na base desta regra de três simples causarem imediatamente mudanças na distribuição dos deputados, especialmente nos círculos de maior dimensão (que distribuem mais deputados).

Este exercício parte de duas pressuposições. A primeira é a de que os resultados da sondagem de intenções de voto nas eleições de 2005 são um bom retrato das intenções de voto da população no momento em que a sondagem foi feita. Mas se isso é ou não verdade é um problema enfrentado por qualquer sondagem, e não é um problema da projecção propriamente dita. A segunda pressuposição - esta sim, crucial - é a de que as mudanças verificadas no comportamento de voto entre 2002 e 2005 a nível nacional serão proporcionais às mudanças verificadas entre 2002 e 2005 em cada um dos círculos. Por outras palavras: pressupõe-se que há diferenças estáveis, estruturais, entre os diversos círculos eleitorais no que respeita aos padrões de comportamento de voto, e que as mudanças ocorridas entre duas eleições são transversais a todos os círculos, repercutindo-se proporcionalmente em cada um deles.

Uma maneira simples de avaliar a bondade destas pressuposições consiste em fazer um pequeno teste. Imaginem que não sabiam os resultados eleitorais em cada círculo em 2002 mas conheciam:

1. Os resultados nacionais de 1999;
2. Os resultados nacionais em 2002;
3. Os resultados por círculo em 1999.

Agora, podem "prever" os resultados por círculo em 2002 com base na regra de três simples e comparar os resultados desta previsão com aquilo que realmente sucedeu. A "previsão" seria a seguinte:

PSD: 101 deputados
PS: 100 deputados
CDS:15 deputados
CDU:11 deputados
BE: 3 deputados

O que aconteceu na realidade foi isto:

PSD: 105 deputados
PS:96 deputados
CDS:14 deputados
CDU: 12 deputados
BE:3 deputados

O que falhou na "previsão"? Em Viana, o CDS perdeu o deputado que tinha em 1999, ao contrário do que seria previsível. Em Lisboa, o PS foi menos punido (e a CDU mais) do que se poderia esperar na base dos resultados a nível nacional. Em Santarém foi o inverso. Em Setúbal, o PSD foi mais longe do que esperaria, em detrimento do PS. Em Évora, a CDU preservou um deputado, que se esperaria perdido na base dos resultados nacionais. E nos Açores, na Madeira, e no círculo fora da Europa, o PS foi desproporcionalmente castigado.

Há várias conclusões que se podem tirar daqui. A primeira é: nada mau. É claro que as pressuposições do modelo são irrealistas, e que há factores e dinâmicas locais que fazem com que as mudanças de uma eleição para a outra não se repercutam da mesma forma em todo o lado. Mas esse irrealismo, que faz com que as estimativas percentuais "previstas" se desviem daquelas que acabam por acontecer, pode não afectar a projecção de deputados de forma muito grave. Especialmente nos círculos mais pequenos, desvios percentuais que podem parecer importantes acabam por ser irrelevantes do que respeita à distribuição de deputados pelo método de Hondt. E como vimos anteriormente, erros verificados nuns círculos acabam por ser compensados por erros na direcção oposta noutros círculos.

É claro que esta interessante e inocente brincadeira, quando usada, talvez devesse ser explicada com algum detalhe, em vez de apresentada de forma um bocadinho pomposa como sendo um "exercício técnico-científico". E espero que seja também evidente que tudo isto depende crucialmente de uma coisa: as estimativas feitas para a intenção de voto em 2005. Tirem uns pontinhos ali e ponham outros acolá, mesmo que sejam só aqueles que decorrem da margem de erro amostral, e vão ver como a projecção muda completamente. E quando a principal questão consiste em saber se um determinado partido vai ou não ter uma maioria absoluta...

by Pedro Magalhães

Mais agradecimentos

Posted January 17th, 2005 at 12:27 pm4 Comments

O CDS e as sondagens: another teaser

Posted January 17th, 2005 at 12:10 pm4 Comments

Entretanto, quer através de mensagens de e-mail recebidas, quer aqui (e aqui), há um tema cuja discussão se começa a impôr: a sistemática desvalorização do CDS nas sondagens pré-eleitorais. O tema é complicado e ando a adiar a coisa, mas prometo que lá irei.

by Pedro Magalhães

O PSD e as sondagens

Posted January 17th, 2005 at 11:19 am4 Comments

Sábado passado, dia de divulgação de uma sondagem pelo Expresso (já aqui tratada), o Secretário-Geral do PSD desafiou todos os partidos a divulgarem o nome das empresas que para eles realizam sondagens, "a bem do rigor, seriedade e credibilidade" e para que, "de uma vez por todas se perceba quais as empresas que um dia trabalham para os jornais e, no outro, trabalham para os partidos" (a notícia do Público assinala que Miguel Relvas se escusou a divulgar no nome das empresas que trabalham para o PSD, mas a verdade é que o fez em frente às câmaras da SIC Notícias: são, segundo o Secretário-Geral do PSD, a Euroteste e a Eurequipa).

Estas declarações vêem no seguimento de muitos outros posicionamentos do PSD sobre este tema, tais como:

- a proposta de proibição de realização de sondagens ou inquéritos de opinião sobre matérias eleitorais a entidades cujos detentores do capital social, membros dos órgãos sociais ou directores ou responsáveis técnicos sejam ou tenham sido membros de partidos políticos nos últimos três anos;

- a preocupação do actual Primeiro-Ministro, quando era ainda candidato à Câmara de Lisboa, com a divulgação de sondagens pela Eurosondagem "em resposta" a uma sondagem da Euroteste (ver aqui);

- a intenção manifestada pelo PSD em 2002 de publicar um "Livro Negro das Sondagens em Portugal", revelando a forma como, "desde 1991, o PSD tem sido invariavelmente prejudicado" nos resultados.

Como não sou jurista, vou deixar de lado a possibilidade da proposta do PSD, prevendo a incompatibilidade entre a militância partidária e a realização de sondagens, ser inconstitucional, quer pelo lado da limitação de direitos políticos quer pelo lado de limitação da liberdade de escolha de profissão. Também não creio que valha a pena perder muito tempo com o argumento de o PSD ter sido invariavelmente prejudicado pelas sondagens. Se quiserem confirmar a invalidade da acusação, olhem para aqui (.pdf). E de resto, o prometido "Livro Negro" acabou por nunca ser publicado, o que por si só já quer dizer alguma coisa.

O que me intriga é outra coisa: o que faz o PSD supor que o consumo de energias e tempo de antena com esta monomania é eleitoralmente compensador? Num estudo de 2002, realizado pelo ICS, 73% dos inquiridos afirmavam ter "pouca" ou "nenhuma" confiança nos partidos, enquanto que apenas "44% deles afirmavam ter "pouca" ou "nenhuma" confiança nos institutos de sondagens. Bem ou mal, justas ou injustas, as percepções são estas. E posto isto, o que pensa o PSD poder ganhar ao chamar ainda mais a atenção para resultados que lhe são manifestamente desfavoráveis, e nos quais os eleitores parecem confiar mais do que nos próprios partidos? Mistério.

E há outro mistério que gostava de decifrar. Ontem, depois de atravessar o viaduto Duarte Pacheco na direcção de Lisboa, julguei vislumbrar um novo outdoor do PSD onde se mostrava um gráfico com os resultados de várias sondagens, indicando uma linha ascendente do PSD (repetindo, aliás, outdoor semelhante já usado nas autárquicas por Santana Lopes). Pareceu-me que uma das sondagens cujos resultados visavam validar esta curva ascendente era uma sondagem do Expresso. Da Eurosondagem. Não pode ser. De certeza que vi mal. Ou não?

by Pedro Magalhães

Teaserzinho II

Posted January 17th, 2005 at 10:48 am4 Comments

Como podem ver no Público, os resultados da sondagem de que falei há dias não são muito surpreendentes, especialmente se tivermos em conta os resultados de estudos anteriores. Contudo, os números, se não surpreendem, continuam a impressionar:

- só 16% dos inquiridos afirmam ter alguma vez contactado directamente com um deputado do seu círculo eleitoral;

-mais de metade dos inquiridos afirma não saber o nome de algum deputado ou deputada que tenha sido cabeça de lista por algum partido no seu círculo eleitoral;

- cerca de 75% dos inquiridos afirmam “concordar” ou “concordar completamente” com as afirmações de que “os políticos só estão interessados nos votos das pessoas e não nas opiniões delas” ou que “os partidos criticam-se muito uns aos outros, mas no fundo são todos iguais”;

- 55% dos inquiridos concordam com a ideia de que “sejam quais forem os resultados das eleições, isso acaba por não fazer grande diferença no curso dos acontecimentos”.

A falta de conhecimento de (e contacto com) os deputados por parte dos eleitores leva-nos para uma discussão complicada sobre o sistema eleitoral, para a qual houve mais mais um contributo interessante ontem [se bem que a diferença entre o que sucede em Portugal e o que sucede em sistemas eleitorais onde os deputados são total ou parcialmente eleitos em círculos uninominais seja muito menos dramática do que possa parecer à primeira vista. Ver aqui (.pdf)].

Mas 55% dos eleitores a pensarem que os resultados das eleições não fazem grande diferença no cursos dos acontecimentos... O que impressiona não é tanto a possibilidade dos eleitores estarem enganados. É a possibilidade de que tenham razão.

by Pedro Magalhães