Pedro Magalhães

Margens de Erro

Sondagens para as presidenciais

Posted November 23rd, 2015 at 11:04 am4 Comments

Que me tenha apercebido, com o menu de candidatos mais ou menos definitivo, temos apenas duas (2) sondagens. Uma foi realizada pela Aximage, com o trabalho de campo a terminar no dia 4 de Novembro e uma amostra de 603 inquiridos. Outra foi realizada pela Eurosondagem, com o trabalho de campo a terminar dia 18 de Novembro e uma amostra de 1510. Há muitas sondagens anteriores, todas úteis à sua maneira, mas com candidatos que acabaram por não o ser (Rui Rio, Jerónimo de Sousa) ou faltando-lhes outros (Edgar Silva, Marisa Matias).

O que dizem estas duas sondagens?

1. Que não há indicações claras sobre se Marcelo tem mais de 50% das intenções de voto válidas: 48% para a Eurosondagem e 64% (depois de redistribuídos indecisos e votos em branco proporcionalmente pelos votos válidos) para a Aximage.

2. Que não se sabe quem tem mais intenções de voto à esquerda. Na Aximage, Nóvoa tem 17% contra 15% de Belém. Na Eurosondagem, Belém tem 19% contra 17% de Nóvoa.

3. Que não se sabe o peso dos restantes candidatos: 4% para a Aximage, 16% para a Eurosondagem.

Em suma, grande incerteza sobre vitória à 1ª volta, grande incerteza sobre quem iria a uma 2ª volta, grande incerteza sobre o peso dos restantes candidatos.

Como compara isto com o passado? 2006 talvez seja o melhor ponto de comparação, dado serem eleições onde, tal como nestas, não concorria o presidente em exercício. Em Novembro de 2005, foram divulgadas cinco sondagens, da Eurosondagem, da Marktest, da Católica, da Aximage e da Intercampus. Cavaco Silva aparecia com valores entre os 53% e os 57% nesse mês, mas no resto da campanha persistiram sondagens com resultados num intervalo bastante amplo, entre os 63% da Gemeo/IPAM (logo no início de Dezembro) e os 52% da Eurosondagem em Dezembro e da Católica nas sondagens finais de Janeiro, sendo que a vitória de Cavaco à primeira volta foi, como se recordarão, ainda mais apertada (50,5% dos votos; com menos 29758 votos teria havido 2ª volta).

Como também se recordarão, a questão Alegre vs. Soares só se começou a resolver nas sondagens da última semana, e Jerónimo de Sousa teve um resultado melhor do que qualquer sondagem lhe concedeu. Em suma, há muito caminho para andar até ao dia 24 de Janeiro.

by Pedro Magalhães

Estabilidade governativa

Posted October 22nd, 2015 at 5:02 pm4 Comments

Têm sido apresentado muitos argumentos sobre a conveniência desta ou daquela solução governativa. São de três tipos. O primeiro toca questões de "legitimidade". É legítimo que o governo seja liderado por um partido que tem menos deputados que outro no parlamento? É legítimo um governo de direita quando a maioria no parlamento é de esquerda? O segundo toca questões de preferências sobre políticas e suas consequências. Preferimos que o país seja governado assim ou assado, com estas ou aquelas presumíveis consequências? O terceiro toca questões de "estabilidade". Que solução garante mais estabilidade governativa?

Queria falar apenas sobre este terceiro ponto. Há uma bibliografia enorme e bastante sofisticada sobre isto: que características de governos e de sistemas políticos estão mais associadas a governos estáveis, e quais fazem com que um governo tenha maiores riscos de cair antecipadamente? Muita dessa bibliografia não se nos aplica: é sobre a maneira como os primeiros ministros marcam eleições estrategicamente, mas por aqui os PM's não têm esse poder. Quanto a outros factores, especialmente desde este paper de King e colegas (1990), julga-se saber que:

1. Governos maioritários duram mais tempo que governos minoritários.

2. Quanto maior o peso de partidos extremistas num sistema partidário, menos tempo duram os governos.

3. Quanto mais fragmentado o parlamento, menos tempo duram os governos.

4. Se não tiverem de ser sujeitos a investidura — à necessidade de aprovação do programa por maioria absoluta — os governos duram mais tempo (presumivelmente porque há menos que caem nesse momento, o que não quer dizer que os que sobrevivem sob um sistema de investidura não sejam até mais duráveis).

A referência mais importante que se segue é provavelmente Diermeier e Stevenson (1999), que introduzem, entre outras coisas, uma distinção entre dois tipos de risco a que qualquer governo está sujeito: o de cair devido a uma dissolução do parlamento e convocação de eleições e o de ser substituído sem eleições. A mensagem principal é que os processos que proporcionam um tipo de queda de um governo não são exactamente os mesmos que proporcionam o outro e, substantivamente, para além de se confirmar o efeito importante que o carácter maioritário ou minoritário dos governos tem nas suas chances de sobrevivência, Diermeier e Stevenson detectam que a diversidade interna das coligações do ponto de vista ideológico é um factor que diminui o seu tempo de vida expectável, favorecendo, neste caso, a sua queda através de sua substituição sem eleições.

Mais recentemente, há uma referência que beneficia muito do caminho trilhado pelos textos anteriores, Schleiter e Morgan-Jones (2009), que mostram que:

1. O risco de um governo minoritário cair, seja por dissolução seja por substituição, é cerca de 2 vezes superior ao de um governo maioritário.

2. Governos monopartidários, em democracias mais antigas, e onde está presente o partido do eleitor mediano estão sujeitos a um menor risco de serem substituídos por outros sem eleições.

Outro trabalho, de Saalfeld (2009), sintetiza muitas das conclusões anteriores. Finalmente, este vosso criado e o Jorge Fernandes mostramos, num artigo acabadinho de sair, e entre outras coisas, que muitas destas conclusões se continuam a aplicar quando olhamos exclusivamente para regimes semi-presidenciais, que presidentes com poder de dissolução discricionário aumentam o risco de governos caírem por dissolução (daaah) e que presidentes com poder de demissão discricionário aumentam o risco de um governo ser substituído, sem eleições, por outro liderado por um partido diferente.

Assim, que lições úteis podemos retirar da literatura para a nossa situação concreta?

  1. Que apesar do facto de não termos investidura facilitar a formação e sobrevivência de um governo, governos minoritários estão sujeitos a um risco maior de terminarem antes do tempo que governos maioritários.
  2. Que governos onde não esteja presente o partido mediano estão sempre sujeitos a um risco maior de terminarem antes do tempo. Traduzindo, em Portugal, isto milita contra a estabilidade de um governo minoritário onde não esteja o PS. Miguel Galvão Teles, com a sabedoria de quem não precisa de estatísticas, chamava a atenção para o problema dos "governos minoritários descentrados", aqueles que enfrentam maiorias absolutas ou à sua direita ou à sua esquerda (este último o problema de um governo PSD/CDS nas actuais circunstâncias).
  3. Mas governos compostos por uma coligação onde estejam partidos muito distanciados ideologicamente estão também sujeitos a um maior risco de caírem antes de tempo. Em Portugal, o posicionamento esquerda-direita dos partidos tal como medido através dos seus programas partidários, retirado do Manifesto Projecto Database), mostra em 2011 uma crescente polarização ideológica no sistema, e há boas razões para crer que tenha aumentado. Mesmo que as coisas não tenham mudado muito, PSD e CDS estarão presumivelmente próximos um do outro, PS e PSD menos, CDS/PSD/PS aumenta ainda mais a distância entre os potenciais parceiros e PS/PCP/BE mais ainda.
Screen Shot 2015-10-22 at 12.17.17 Em suma, a situação eleitoral criada a 4 de Outubro é inimiga da estabilidade governativa em quase todas as soluções possíveis que consigo imaginar. Se tapamos um lado do corpo com a manta (governo coeso PSD/CDS) destapamos outro lado (minoritário e sem o partido pivotal). Se puxamos para tapar outra parte (um governo majoritário PS/BE/PCP) destapamos outra (três partidos ideologicamente distantes num mesmo governo). Se o tornamos menos diverso ideologicamente (PS sozinho) destapamos outra parte (minoritário, com parlamento mais fragmentado e polarizado do que no passado recente). Etc.

Reforço que nada disto tem a ver com a conveniência ou não da adopção destas ou daquelas políticas por parte deste ou aquele governo (isso são contas muito importantes mas de outro rosário) nem com questões de "legitimidade" (eu diria que a legitimidade resulta fundamentalmente do respeito escrupuloso pelos procedimentos, mas há quem tenha outras opiniões). Nem sequer pressuponho que a estabilidade seja o valor único ou sequer principal que deve contar. Mas se queremos falar de estabilidade, há investigação, com conclusões sólidas e, diria, bastante previsíveis e lógicas. Elas sugerem, por diferentes razões, que o caminho para uma qualquer solução de governo que possa emergir do processo actual em Portugal e que não comporte riscos conhecidos e grandes para a estabilidade governativa é apertadíssimo, para não dizer inexistente. C'est la vie.

by Pedro Magalhães

O que os eleitores “querem”.

Posted October 14th, 2015 at 11:24 am4 Comments

Por estes dias, toda a gente sabe o que os eleitores de cada partido queriam e preferiam quando votaram, o que significa o voto e que preferências transmitiu. Eu não tenho a certeza sobre 2015. Mas posso recuar a 2011, com os dados do estudo eleitoral português. Já passaram uns anos, as pessoas que votaram em cada partido em 2011 não são as mesmas que votaram desta vez, etc. Mas por mera curiosidade, como se distinguiram as preferências de cada eleitorado? Numa escala de 1 a 10, em que 1 significa uma coisa (normalmente mais associada a posições de esquerda) e 10 outra (normalmente associada a posições de direita), onde é que as pessoas que dizem ter votado em cada partido se posicionaram, em média?

Vejamos sobre o aborto:

Aborto Hum, curioso. Em média, apenas os que votaram PSD são os que se aproximam mais do ponto intermédio da escala, o BE é o mais "à esquerda", mas em geral próximos uns dos outros e ninguém em posições extremas.

E abandonar o Euro? Inevitável mais tarde ou mais cedo?

euro Olha, os que votaram BE em 2011 eram os que menos concordavam com a ideia. Mas todos muito próximos, também.

E vamos lá ver, quem quer mais estado ou menos estado na saúde e na educação? É evidente, não é?

educaçãosaude Pelos vistos, em geral, privado vade retro. E curioso, os que votaram BE até são menos desfavoráveis ao privado na educação.

E privatizações de empresas públicas?

empresas Todos tão próximos? E os eleitores do PS são os que mais se opõem? Olha que giro.

E se tivéssemos de escolher, o que mais queríamos: incentivar a iniciativa individual ou promover igualdade?

rendimento O CDS menos igualitarista, é certo, mas os outros relativamente alinhados.

E defender liberdades cívicas ou defender a lei e a ordem?

lei e ordem Alinhamento previsível. Mas diferenças tão pequenas...

Bem, se calhar são as perguntas que não prestam, pode ser isso. A outra hipótese é que a conversão entre as preferências dos eleitores em termos de valores e políticas públicas em Portugal seja péssima, seja porque os partidos são pouco claros nessa tomada de posição, seja porque os eleitores são pouco interessados e informados, ou talvez, talvez, porque os eleitores cada vez mais descontem todo o tipo de coisas que os partidos lhes tentem transmitir sobre estes assuntos e sejam movidos por outras considerações (desempenho, liderança, etc). Mas isto é só para dizer que, quanto vos disserem que os eleitores dos partidos queriam isto e aquilo, desconfiem. P.S.- Para detalhes sobre o estudo eleitoral português de 2011, ver aqui. Os maiores ou menores intervalos em torno das estimativas para cada partido reflectem, no fundamental, os diferentes tamanhos das sub-amostras de votantes em diferentes partidos. Os resultados decorrem de pós-estratificação amostral, para corrigir distorções na composição da amostra em termos socio-demográficos e eleitorais.

by Pedro Magalhães

As sondagens pré-eleitorais

Posted October 5th, 2015 at 10:02 am4 Comments

1. Quadro com médias aritméticas e intervalos, últimas sondagens de cada empresa, no final da penúltima e da última semanas antes das eleições. sondagens final 2. Era bom que nos convencêssemos do seguinte: o default em eleições legislativas é que, em Portugal, e em geral, as intenções de voto tal como captadas nas sondagens, pelo menos a duas semanas das eleições, já traçam relativamente bem o quadro geral daqueles que acabam por ser os comportamentos dos eleitores, e muito mais nas últimas sondagens antes da eleição. A maior parte dos desvios parece decorrer do prolongamento de tendências já detectadas. Não tinha de ser assim, mas é. Telefones fixos? Baixas taxas de resposta? "Direita tímida"? Late swings? Abstenção diferencial? Amostras pequenas? Tudo isso é potencialmente importante e importa considerar, mas a verdade é que os resultados resistem. Contudo, importa ter em mente que isto pode ser tanto fruto do bom trabalho das sondagens como de características do eleitorado português e das eleições aqui que facilitam a vida a quem as faz. Provavelmente de ambos. E não é assim em todos os tipos de eleições. Logo, convém não cair em excessos de auto-congratulação.

3. Isto também não impede outro género de considerações mais críticas. Houve muita confusão este ano sobre as sondagens, como sempre, de resto. Comentários e notícias que não distinguem os conceitos de "universo" dos conceitos de "amostra", que não percebem que tracking polls são sondagens como outras quaisquer, que sobrestimam os problemas resultados da utilização de telefones fixos sem perceber que enviesamentos sociológicos não têm de ser enviesamentos políticos, que valorizam excessivamente mudanças e diferenças que não têm significado estatístico, que se concentram sobre a dimensão das amostras sem perceber que o tamanho não é tudo, etc, etc, etc. Mas talvez com um bocado de wishful-thinking, tenho a sensação que, pouco a pouco, a leitura destas coisas vai, muito lentamente, ficando mais ponderada.

4. E também não impede que se critique a pobreza das sondagens do ponto de vista do seu conteúdo substantivo. Acho que era possível fazer melhor e mais interessante, sem grande acréscimo de custos. Para isso, será preciso que os clientes saiam da mentalidade de obsessão exclusiva com a corrida de cavalos. Não vai ser fácil.

5. Vai haver comentários sobre os efeitos das sondagens. Há duas teorias: uma é que as sondagens mediram correctamente as intenções de voto e que os resultados o reflectem; outra é que as mediram incorrectamente e que foram os resultados que as sondagens deram que "manufacturaram" os resultados. A pergunta que se segue é: que evidência empírica existe para cada teoria? A resposta é que, para a segunda, essa evidência é, lamento, nula. Dito isto, não quer dizer que não tenham existido efeitos. Uma coisa quase certa é que, até meados de Setembro, a maioria dos portugueses pensava que o PS ia ganhar, e que a partir daí passou a haver uma maioria dos portugueses a pensar que a coligação ia ganhar. Parece impossível que essa mudança de percepção tivesse ocorrido sem as sondagens. Logo, a possibilidade de que essa percepção tenha mudado intenções e comportamentos, que tenha afectado a capacidade de mobilização e a coesão dos partidos e/ou que tenha modificado a cobertura da campanha não pode de todo ser descartada. Mas é preciso investigar em que direcções esses efeitos terão ocorrido, e se houve uma direcção predominante. Vai ser difícil. Mas palpites não chegam.

by Pedro Magalhães

Cinco gráficos sobre as eleições, já com resultados finais

Posted October 5th, 2015 at 8:06 am4 Comments

1. Afinal, a participação eleitoral oficial não aumentou, como se chegou a pensar na base das projecções das televisões (provavelmente, a afluência no final do dia foi menor que o habitual). Contudo, é altamente provável que a participação "real" (votantes sobre população com idade de voto residente - dados aqui), tenha aumentado, tendo em conta a emigração dos últimos anos. Mas mesmo esse deverá ser um aumento modesto. Particip 2. O "arco da governação" abana: PSD+PS+CDS têm a menor votação desde 1985, o ano do PRD. Nada que se compare, é certo, com o que se passou na Grécia ou se prepara para Espanha. Contudo, nos discursos de Portas, Costa e Passos Coelho ontem, foi bem visível, implícita e nalguns casos explicitamente, a preocupação com estes desenvolvimentos. Arco 3. PSD+CDS têm 38,6%. Pior só em 2005, com Santana Lopes. Enough said. PSDCDS 4. PS tem 32,4%, menos do que em 1983 (depois dos governos AD), menos do que em 2002 (depois do "pântano"), menos do que em 2009 (depois do 1º governo Sócrates). PS 5. O BE tem 10,2%. Bom resultado, mas pouco acima de 2009. Já sabemos o que fez com esse resultado de 2009. Veremos o que fará desta vez. BE

by Pedro Magalhães

PSD+CDS nas projecções eleitorais

Posted October 4th, 2015 at 8:08 pm4 Comments

Usando a média dos pontos centrais das projecções dos três canais, PSD+CDS só tiveram menos em 2005 e 1975. Mas ao contrário do que sucede à conclusão sobre o "arco da governação", isto exigirá actualização dos dados. Podem ainda ultrapassar resultados como o de 2009, 1985 e 1983.

PSD+CDS

by Pedro Magalhães

O “arco de governação” nas projecções

Posted October 4th, 2015 at 8:04 pm4 Comments

Usando a média dos pontos centrais da projeções dos três canais, PSD+CDS+PS somados têm o pior resultado desde...1985. Arco    

by Pedro Magalhães

Abstenção nas projecções das televisões

Posted October 4th, 2015 at 7:32 pm4 Comments

Presumindo que as projecções da abstenção avançadas nas televisões estão globalmente correctas (uso o ponto médio dos três intervalos apresentados), ficaria assim a evolução da participação eleitoral desde 1975. abstenção Inversão de tendência, já não é mau.

by Pedro Magalhães

As últimas sondagens e as eleições

Posted October 2nd, 2015 at 4:47 pm4 Comments

São as da Aximage (divulgada hoje), da Católica (divulgada ontem), da Intercampus (idem), da Eurosondagem (idem) e da Marktest (anteontem). Quadro:

Últimas sondagens Apesar de não parecer (porque só se vê média aritmética e intervalo min-max), reduziu-se a dispersão. A Marktest é que está um pouco desalinhada (o que não é juízo nenhum da minha parte). Se retirarmos Marktest, temos 37-39 para coligação, 32-33 para o PS, 9 para CDU e 7-9 para BE.

A nossa estimação no POPSTAR já andava há uns tempos por estes números. Contudo, integradas todas as sondagens, a coincidência não é completa.

Screen Shot 2015-10-02 at 15.12.46 Screen Shot 2015-10-02 at 15.14.52 Primeiro, como explicado ontem, a estimação tende a "resistir" às mudanças mais repentinas, integrando informação anterior. Logo, não coloca o PS tão baixo como na média aritmética das últimas sondagens, nem o BE tão alto. Segundo, as dimensões das amostras são tomadas em conta. Terceiro, importa não esquecer que há uma sondagem divulgada ontem cujo trabalho de campo terminou antes daquele que serviu para sondagens divulgadas dias antes, se me faço entender. Mas a maior parte das sondagens cabem nos nossos intervalos de confiança. Isso é também importante porque duas destas últimas sondagens foram conduzidas presencialmente e com simulação de voto em urna, o que mostra que os resultados são robustos a métodos diferentes. Globalmente,a mensagem é clara quanto aos maiores partidos: a coligação estará com mais intenções de voto do que o PS. No caso da CDU e do BE, enquanto a nossa estimação diz o mesmo para a sua diferença, as sondagens mais recentes não. Sobre PDR e Livre melhor não falar muito, porque temos muito menos informação.

Partindo do princípio que temos um bom retrato das intenções de voto (e enviesamentos amostrais e ocultação de intenções podem ter afectado isso, mas vamos suspender a questão), o que podemos dizer sobre o que será o comportamento de voto dia 4? Dizer que estas intenções se converterão em comportamentos e resultados é um pouco como estar numa 6ª feira de sol em Agosto e dizer que por isso Domingo irá fazer sol também: é bem provável que sim, mas... Há basicamente três coisas que podem acontecer que implicariam diferenças:

1. "Indecisos": a Católica reporta 17% de pessoas que dizem ir votar mas não sabem em quem (15%) ou não dizem (2%); 11,3% na Intercampus; 18% na Eurosondagem. Se estas pessoas acabarem por ir votar e se distribuírem de forma significativamente diferente pelos partidos daquela que caracterizará aqueles que tinham um intenção de voto e a realizem, pode haver mudanças relevantes, nunca dramáticas tendo em conta estes números, mas politicamente relevantes. Pelo contrário, se se distribuírem mais ou menos da mesma forma ou se a maior parte desses indecisos se abstiver, muito pouco poderá mudar.

2. "Late swings": as "intenções" declaradas podem ser substituídas por comportamentos distintos dessas intenções. Um conhecido artigo fala em "waking up in the poll booth": há flutuações de intenções de voto na campanha mas, chegados ao dia da eleição, um percentagem não negligenciável dos eleitores acaba por retornar ao sentido de voto que tinha antes da campanha, esquecendo o ruído das últimas semanas e votando na base de uma reflexão mais geral sobre o que foi a governação e a legislatura. Outro tipo de mudança aponta para voto estratégico, ou seja, eleitores que, na base de informação de sondagens, trocam na recta final o seu partido preferido por outro, para promoverem ou evitarem um determinado desfecho em termos de formação de governo.

3. Abstenção diferencial: um dos grandes desafios das empresas de sondagens consiste em separar os inquiridos que quase certamente irão votar (e assim realizar as intenções declaradas - desde que não as mudem, ver ponto 2.) daqueles que dizem que irão votar mas afinal não acabam por não ir. Preferindo dizer que irão votar quando não sabem se o irão fazer, ou mesmo quando já decidiram abster-se, alguns inquiridos contribuem para inflacionar os valores da participação em sondagens. Isso pode acabar por não ter qualquer reflexo na comparação entre os resultados das sondagens e os resultados eleitorais, se as intenções de voto que essas pessoas declararam não se distribuíam de forma diferente das dos restantes. Mas nem sempre isso acontece. Por vezes há "abstenção diferencial". Os primeiros resultados de um estudo recente sobre as últimas eleições britânicas sugerem precisamente que o problema terá estado aqui: "Labour lead among unlikely voters grew hugely between 2010 and 2015, suggesting that differential turnout is an important factor in explaining the polling miss: considerably fewer of those saying they were going to vote Labour are likely to have actually turned out to vote".

Vamos ver o que acontece. Não me ocorre mais nada para dizer na base da informação que existe.

Tenho recebido referências muito amáveis em relação ao Popstar, que agradeço. Relembro que o Popstar foi um projecto apoiado pela FCT, e teve o trabalho, num momento ou noutro, do Mário Silva, do Sílvio Moreira, da Eduarda Rodrigues, do Pedro Saleiro, do Carlos Soares, da Paula Carvalho, da Nina Wiesehomeier, do João Filgueiras, do Manuel Távora (vê lá se arranjas um site, pá) e, mais intensamente no que tocou à componente sondagens, do Miguel Maria Pereira e do Luís Aguiar-Conraria (espero não me ter esquecido de ninguém). No que toca a estas eleições, o Popstar acaba aqui a sua função mais imediata, mas pode naturalmente ser fonte para trabalhos futuros. Os dados estão disponíveis.

by Pedro Magalhães

Ponto de situação a três dias das eleições

Posted October 1st, 2015 at 9:44 am4 Comments

1. Introduzidas as sondagens mais recentes divulgadas ontem, o filtro do Popstar estima as intenções na coligação PàF nos 38,5%, no PS em 34,6%, na CDU em 8,9% e no BE em 6,3%. Infelizmente, há muito tempo que não temos informação nova sobre o PDR e o Livre, pelo que não é sensato estar agora a falar neles. Os intervalos de confiança entre a coligação e o PS e entre a CDU e o BE não se sobrepõem, o que é relevante, especialmente tendo em conta que são estimados de forma "conservadora", ou seja, sendo mais amplos do que seriam exclusivamente na base de erro amostral. Por outras palavras, são ínfimas as dúvidas de que, na população, haja mais pessoas que tencionam votar na coligação do que no PS, e mais na CDU do que no BE.

2. Outra coisa em que o nosso modelo é conservador é na integração de nova informação. Se olharem para os gráficos, verificarão que a linha azul da coligação está abaixo da maior parte dos pontos azuis mais recentes e que a linha rosa está acima da maior parte dos pontos rosa mais recentes. Por outras palavras, a estimação não é uma mera média móvel das sondagens mais recentes. Isso sucede porque o modelo integra, por definição, informação anterior, e especialmente porque os parâmetros que o governam foram estimados numa altura em que havia poucas sondagens e poucas mudanças. Mas o Luís Aguiar-Conraria esteve a trabalhar sobre isto e enviou-me hoje as estimações que resultariam de usar toda a informação até hoje e assim tornar estes parâmetros menos "conservadores", ou seja, mais sensíveis a mudanças de curto prazo: 38,8% para a PàF e 33,5% para o PS. Como vêem, não é muito importante. E mais: o "conservadorismo" do nosso modelo significa apenas que, se vemos mudanças, elas são robustas. Vamos por isso continuar com ele.

3. Há, contudo, algo a que as nossas estimativas de intenções de voto não são robustas: à possível existência de enviesamentos comuns às sondagens que têm sido divulgadas. Se, por alguma razão, as amostras que têm sido constituídas tiverem um perfil político sistematicamente distinto do da população, ou se, por alguma razão, houver apoiantes de um determinado partido que sejam mais atreitos a ocultar ou dissimular a sua real intenção dos inquiridores, isso passará ao lado das sondagens e, logo, ao lado de quaisquer estimações que possamos fazer. Contudo, há algo que pode ajudar: as sondagens feitas presencialmente e com simulação de voto em urna que, creio, conheceremos hoje e amanhã. Por serem presenciais, têm um procedimento amostral distinto. E por usarem simulação de voto, ajudam a contrariar a possível indisponibilidade dos eleitores a revelaram a sua real intenção de voto. O mais importante aqui não é presumir que estas sondagens são "superiores" às outras (se bem que, por alguma razão, alguns institutos escolhem este procedimento apenas para as suas últimas sondagens). O mais importante é que esta metodologia é diferente da que tem sido usada. E sendo diferente, se produzir resultados congruentes, a presunção de que possa haver um enviesamento comum a todas as sondagens torna-se menos plausível.

4. Estamos a falar de intenções, não de comportamentos. Daqui até às eleições, por definição, umas teriam que se transformar nos outros para que se pudessse dizer que estas estimativas serviriam como prognóstico eleitoral. Mas como não sabemos se será assim, não as podemos apresentar como tal. Amanhã, com as estimativas finais das intenções de voto no fim da campanha, falarei um pouco mais sobre isto.

by Pedro Magalhães