Pedro Magalhães

Margens de Erro

Uma análise das avaliações das unidades de investigação pela FCT/ESF

Posted July 11th, 2014 at 6:14 pm4 Comments

Eu e o Luís Aguiar-Conraria fizemos um exercício relativamente simples utilizando os dados do estudo bibliométrico encomendado pela FCT no âmbito da avaliação das unidades de avaliação. Primeiro, juntámos as diferentes bases de dados desse estudo bibliométrico – que se encontram divididas por área científica – numa única base. Para os centros que apareciam em diferentes áreas científicas ao mesmo tempo, assinalámos o seu carácter interdisciplinar para o tomarmos em conta na análise posterior. Depois, para cada centro, fomos recolher a nota recomendada na 1ª fase da avaliação: “Poor”, “Fair”, “Good” e passagem à 2ª fase para os restantes (que não têm ainda nota atribuída). Em apenas duas unidades incluídas no estudo bibliométrico – Centre for Research in Private Law e o e-Planning Lab – não conseguimos determinar o desfecho da 1ª fase da avaliação, por não parecerem estar incluídas no ficheiro respectivo a que tivemos acesso. A base que elaborámos está disponível aqui. Não é impossível que contenha erros, apesar de termos feito os maiores esforços para os evitar.

A pergunta que colocámos de seguida é simples: que factores conhecidos e objectivamente mensuráveis acerca dos centros de investigação terão afectado a probabilidade de terem passado à 2ª fase da avaliação ou a nota que receberam?

Podemos imaginar alguns factores possíveis:

1. A área científica em si mesma, que pode ser captada seja através da pertença a uma das 45 “main scientific areas”, seja, de forma mais agregada, pelo painel de avaliação (6 grandes áreas, Exact Sciences, Health and Life Sciences, Humanities, Engineering Sciences, Natural and Environmental Sciences e Social Sciences).

2. A dimensão absoluta das unidades (medida em “Full Time Employees”).

3. O volume da sua produção científica em revistas internacionais indexadas na Scopus ao longo dos anos 2008 a 2012 (“Total output 2008-2012”).

4. O impacto científico da investigação publicada conduzida na unidade no mesmo período, medida através do H-Index, que consiste no número de artigos publicados com um número de citações maior ou igual a esse número (para uma explicação mais detalhada, ver aqui).

5. Se a unidade de investigação é interdisciplinar, ou seja, se se encontra registada em mais do que uma área científica.

Se a variável dependente for binária (com 0, não passou à 2ª fase, e 1, passou à 2ª fase), podemos correr um modelo probit para medir o impacto das variáveis anteriores na probabilidade de ter passado à 2ª fase. Uma análise preliminar mostra que área científica de pertença do centro não teve efeitos relevantes (apenas os centros na área de Business e de Educational Sciences tiveram uma probabilidade ligeiramente inferior aos restantes de passar à 2ª fase). O mesmo sucede quando testamos os efeitos do painel de avaliação. Logo, corremos um modelo simplificado, cujos resultados se mostram abaixo:

modelo 1 Independentemente da sua dimensão, do nº total de publicações que tiveram e de serem ou não interdisciplinares, centros com um h-index mais elevado tiveram uma probabilidade maior de passarem à 2ª fase. Mais concretamente, um centro com um h-index que fosse 13 pontos (o desvio-padrão da amostra) superior ao de outro teve, mantendo os valores das restantes variáveis constantes na média, uma probabilidade prevista de cerca de 16 pontos percentuais superior de ter passado à 2ª fase. Houve portanto uma relação entre o impacto da investigação conduzida nos centros e a probabilidade de passarem à 2ª fase, apesar de não ser muito forte. O mesmo não sucedeu, por exemplo, com o carácter interdisciplinar, que foi aparentemente irrelevante quando olharmos para a totalidade dos centros.

Contudo, o quadro mostrado dá-nos duas informações adicionais. A primeira é que, independentemente do volume de publicações e do seu impacto, centros maiores tiveram maiores probabilidades de passar à 2ª fase. O centro médio avaliado tem cerca 27,6 pessoas full time, mas o desvio padrão é de 30,6. Um centro com uma dimensão cerca de um desvio padrão acima da média teve, ceteris paribus, uma probabilidade prevista superior em 30 pontos percentuais de conseguir passar à 2ª fase, independentemente da quantidade e impacto da sua investigação publicada.

Finalmente, publicar muito, independentemente do impacto, não ajudou, pelo contrário. Em média, cada centro teve 75 publicações no período 2008-2012. Ter tido um número absoluto de publicações cerca de um desvio padrão acima dessa média diminuiu a probabilidade de passar à 2ª fase em 19 pontos percentuais. Este resultado não parece razoável. Provavelmente, como a “qualidade” (em termos de impacto) dos artigos publicados está a ser captada por outra variável, esta variável está a captar publicações de menor “qualidade” (na verdade, num modelo que exclua o h-index, esta variável perde significância, o que parece confirmar esta hipótese).

Podemos fazer a análise de outra forma, tratando as notas como uma variável contínua (de 1, “Poor” a 4, “Passou à 2ª fase”): modelo2 Os resultados vão no mesmo sentido: publicar com impacto foi bom, e ser-se grande foi especialmente bom. Relativamente ao número de publicações, aplica-se o comentário feito no quadro anterior. Utilizámos também um modelo ordered logit, que produziu resultados semelhantes.

Nota-se ainda outra coisa: na regressão linear, estas variáveis explicam apenas 15% da variância nas notas atribuídas. Quando se conhecerem as notas finais dos centros que passaram à segunda fase, é possível que a nossa capacidade de prever a sua avaliação na base deste tipo de dados aumente. Mas por enquanto, o que se sabe é que a maior parte da variância das notas não foi explicada nem pelo número de publicações, nem pelo seu impacto, nem ainda pela dimensão das unidades, e sim por outros factores que não estão captados no modelo.

Uma nota sobre as ciências sociais. Fazendo o mesmo tipo de análise, encontramos os seguintes resultados para as unidades avaliadas por este painel:

modelo3 Os resultados são um pouco diferentes do que se passou na generalidade das unidades. Dimensão e número absoluto de publicações não contaram. O h-index, como indicador de impacto da investigação científica, contou bastante quando se trata de distinguir entre os que passaram e não passaram à 2ª fase (um aumento de 5 pontos percentuais na probabilidade de passar por cada ponto no h-index, mantendo os valores das restantes variáveis constantes nas médias) e de forma menos clara se tratarmos as notas com uma variável contínua (mas mesmo assim próximo da significância estatística).

Contudo, aqui, a interdisciplinaridade foi punitiva: tudo o resto igual, os centros que se apresentaram a outros painéis para além do das ciências sociais tiveram uma probabilidade de passarem à 2ª fase inferior em cerca de 39 pontos percentuais àqueles que se apresentaram apenas ao das ciências sociais. Da mesma forma, o modelo explica apenas 23% da variância se usarmos uma regressão linear. Tudo o resto deve-se a factores que não as publicações, o seu impacto, a dimensão da unidade ou o seu carácter interdisciplinar.

by Pedro Magalhães

A sondagem da Intercampus

Posted May 27th, 2014 at 8:56 am4 Comments

Não me entendam mal. A Intercampus é uma empresa experiente e, que eu saiba, séria, o destino de Seguro não me preocupa e, tendo estado do outro lado, sei bem que se faz o melhor que se pode e que se sabe e os resultados são os que são. Afinal, mesmo que fosse possível fazer uma amostra puramente aleatória, é intrínseco à ideia de amostragem que é sempre possível (se bem que improvável) obter resultados muito desviantes. Mas as ideias de que o PS teria menos em legislativas do que nas europeias ou de que os brancos/nulos estariam 11 pontos acima dos verificados nas europeias mereceria talvez alguma espécie de distanciamento crítico por parte de quem apresenta os resultados.

by Pedro Magalhães

Rescaldo sondagens

Posted May 26th, 2014 at 11:00 pm4 Comments

Nas sondagens pré-eleitorais, quem mais se aproximou da margem de vitória do PS sobre a coligação foi claramente a Católica: 4 pontos, contra uma média de 6,3 pontos previstos pelas quatro sondagens (e 3,8 de vantagem real). Se olharmos para a média dos desvios absolutos em relação aos principais partidos, 2 abordagens possíveis: uma contando com o MPT e outra não (já que a Eurosondagem entendeu não dar estimativa para o MPT). Contando com o MPT, a Católica teve uma média de desvios absolutos de 2 pontos, contra 2,5 da Aximage e 2,7 da Pitagórica. Sem contar com o MPT, Católica com 1,5, contra 2,2 da Eurosondagem, 2,5 da Aximage e 2,7 da Pitagórica (mas a Pitagórica foi quem apanhou melhor fenómeno Marinho e Pinto). Tudo relativamente próximo, mas Católica claramente melhor que as restantes dos dois pontos de vista. Muitos parabéns ao João António, à Verónica Policarpo e ao Jorge Cerol, de quem tenho muitas saudades.

Todos sobrestimaram PS, PSD/CDS e Bloco, todos subestimaram CDU e MPT. Curiosamente, a tendência da última semana anunciou o que se seguiu: nessa semana, PS, PSD/CDS e Bloco desceram, como assinalei aqui, ao passo que CDU subiu e MPT apareceu nas sondagens. Em geral, correu melhor que nas anteriores Europeias (também não era difícil) mas pior do que nas legislativas de 2009 ou de 2011, ou seja, o habitual.

Na boca das urnas, média dos desvios absolutos para 5 principais listas de 0.8 para a Católica e 0.9 para a Eurosondagem. Costumamos ter projecções bastante precisas no encerramento da urnas, e desta vez não variou.

by Pedro Magalhães

Segunda ordem

Posted May 26th, 2014 at 9:41 am4 Comments

Recordemos a referência seminal, "Nine Second-Order National Elections", de Reif e Schmitt, sobre como se comparam eleições de primeira e segunda ordem:

1. "Lower level of participation" (p.9): tivemos 33,9% de participação (o valor oficial mais baixo de sempre em eleições europeias), porventura mais semelhante às anteriores europeias se tomarmos em conta os novos emigrantes que continuam nos cadernos como eleitores residentes no território nacional. A participação nas últimas legislativas foi de 58,1%. CHECK.

2. "Higher percentage of invalidated ballots" (p.9): 4,4% brancos e 3,1% nulos, contra 2,7% brancos e 1,4% nulos nas legislativas de 2011. CHECK.

3. "Government parties lose" (p.9): PSD e CDS têm, em conjunto, menos 12,4 pontos percentuais que nas anteriores europeias (quando estavam na oposição), menos 22,8 pontos percentuais que nas legislativas de 2011 e menos 8,3 pontos do que aquilo que as sondagens para as legislativas lhes atribuem neste momento. CHECK.

4. "Brighter prospects for small and new political parties" (p.9):
- CDU: tem 12,7%; +2,1 que nas anteriores europeias, +4,8 que nas legislativas de 2011, +1,7 do que as sondagens para as legislativas lhe atribui neste momento. CHECK.
- MPT: 7,2% dos votos, +6,5 que nas anteriores europeias, +6,8 que nas legislativas de 2011. CHECK.
- Livre: novo partido, 2,2% no país, mas 3,6% em Lisboa (distrito). CHECK.
- BE: tem 4,6% dos votos, -6,1 que nas anteriores europeias, -0,6 que nas anteriores legislativas, -2,1 do que lhe atribuem as sondagens para as legislativas. NOT CHECK.

5. "Big parties lose" (p. 17): o PS tem 31,5%, +5,0 que nas anteriores europeias e + 3,4 que nas anteriores legislativas, é certo, mas -5,9 daquilo que lhe atribuem as sondagens para as legislativas. Eu diria que isto é um CHECK também.

Reif and Schmitt win again.

by Pedro Magalhães

Sondagens finais, Parlamento Europeu, Portugal

Posted May 23rd, 2014 at 7:17 am4 Comments

ultimas sondagens (clicar na imagem para ver melhor)

Cá estão elas. Muito muito parecidas, com ligeiras notas dissonantes para a Católica em relação ao PS e para a Pitagórica em relação à CDU, mas sem relevância estatística. Em suma, estas sondagens estão dizer-nos exactamente a mesma coisa, algo assim (intervalos em torno das médias das últimas quatro sondagens, com ponderação da dimensão das amostras):

PS: 34,5% - 36,9%
PSD/CDS: 28,8% - 31,1%
CDU: 10,5% - 12,1%
BE: 4.9% - 6.1%
MPT: 2,9% - 4,1%
LIVRE: 1% - 1,9%
OBN: 13,1% - 14,9%

Isto sugere:

1. PS, PSD/CDS e BE desceram na última semana, CDU subiu.

2. 9 deputados PS, 8 PSD/CDS, 3 CDU e 1 BE, se os resultados fossem os dos pontos médios dos intervalos. Mas isto pode mudar com muita facilidade. PS no extremo superior do intervalo e PSD/CDS no extremo inferior e trocam logo um deputado entre si. MPT com 3,8% (e outros inalterados) e temos Marinho Pinto no coração da Europa. Etc.

3. As eleições são Domingo. A verdadeira ficha técnica destas sondagens é a seguinte: "Estas sondagens descrevem o que as pessoas que, há alguns dias atrás, tendo sido encontradas nas suas casas quando as empresas para lá ligaram ou bateram à porta, e tendo aceite responder ao inquiridor, entenderam dizer que tencionavam fazer no dia 25 de Maio." Como podem ver, não dá assim lá muita segurança. É melhor ir votar.

by Pedro Magalhães

Sondagens europeias

Posted May 19th, 2014 at 11:01 am4 Comments

polls european São estas as sondagens europeias que conheço. Estão ordenadas da mais recente para a mais antiga. Quando as empresas divulgam os resultados com indecisos, esses números estão no quadro, mas os resultados são recalculados de forma a que as percentagens de intenções de voto por partido sejam comparáveis entre sondagens e com resultados eleitorais. Para esse efeito, os indecisos são tratados como abstencionistas. Algumas ideias:

1. As cinco sondagens publicadas a partir da segunda metade de Março colocam o PS em vantagem sobre a coligação, com uma vantagem que oscila entre os 4 e os 8 pontos percentuais, sendo que a tendência parece ser de aumento dessa vantagem. A CDU aparece com valores entre os 9% e os 12%, BE entre 5% e 7%, ambos sem tendência clara. Esta semana deveremos conhecer outras, e veremos se há modificações de última hora, tendências novas ou tendências que se consolidam.

2. O que preocupa toda a gente nestas sondagens, em contraste com o que tende a acontecer em legislativas, é que o passado tem dado surpresas importantes no confronto entre as últimas sondagens e aqueles que vêm a ser os resultados finais. Talvez valha a pena recapitular quais foram as principais dessas surpresas:

- Europeias 1994: o PS, ainda na oposição, apareceu na penúltima semana com resultados que apontavam para um valor na ordem dos 42%. Teve 35%. Todos os restantes partidos tiveram melhores resultados do que aquilo que as sondagens sugeriam.

- Europeias 1999: quer o PSD (na oposição) quer (especialmente) o PS (no governo) tiveram piores resultados do que aquilo que as sondagens lhes anunciavam (valores na ordem dos 50% para o PS e 32% para o PSD, quando acabaram por ter, respectivamente, 43% e 31%). Pelo contrário, CDU e CDS superaram as expectativas.

- Europeias 2004: PSD/CDS (no governo) esteve abaixo das expectativas (33,3% nas eleições contra 37% nas sondagens), PS acima (44,5% nas eleições contra 43% nas sondagens), CDU acima (9,1% nas eleições contra 8% nas sondagens) e BE abaixo (4,9% nas eleições contra 5,5% nas sondagens).

- Europeias 2009: PS (no governo) esteve bastante abaixo das expectativas (26,5% nas eleições contra 34,6% nas sondagens), PSD praticamente igual às sondagens (31,7% nas eleições contra 32% nas sondagens), CDU ligeiramente acima (10,6% nas eleições contra 10% nas sondagens), BE ligeiramente acima (10,7% nas eleições contra 10% nas sondagens) e CDS muito acima (8,4% nas eleições contra 5% nas sondagens).

3. Padrões. São só 4 eleições e mesmo assim não é muito fácil. Mas vejamos:

* A CDU teve SEMPRE melhores resultados nas Europeias do que aquilo que as sondagens indicavam.
* Quando concorreu sozinho - 1994, 1999, 2009 - o CDS também teve sempre melhor do que as sondagens indicavam. Mas em 2004, a coligação PSD/CDS como um todo teve um resultado inferior do que as sondagens sugeriam.
* Nem sempre o(s) partido(s) de governo tiveram piores resultados do que as sondagens indicavam. Nomeadamente, em 1994, o PSD superou o que se esperava. Mas nas três eleições seguintes, o(s) partido(s) de governo tiveram sempre resultados abaixo do que foi medido pelas sondagens.
* O BE só foi sistematicamente medido em 2004 e 2009. Em 2004 desiludiu, em 2009 teve algo melhor, mas as diferenças foram muito pequenas.

Mas ainda não temos os resultados das últimas sondagens, que deverão ser conhecidos 5ª e 6ª feira.

by Pedro Magalhães

Sondagens recentes

Posted May 13th, 2014 at 3:39 pm4 Comments

Duas sondagens recentes para eleições legislativas, aqui (Aximage) e aqui (Eurosondagem). Na nossa estimativa com o Filtro de Kalman no POPSTAR, eis como estão as coisas:

PS: 37,4%

PSD: 28.8%

CDU: 11%

CDS/PP: 7.2%

BE: 6.7%

A história dos últimos meses conta-se rapidamente:

1. Desde Julho passado, PS e o PSD, subiram, respectivamente, de 35% para 37% e de 25% para 29%. São mudanças pequenas, mas parecem bastante consistentes ao longo do tempo. O PSD nunca mais voltou aos abismos que precederam a crise política de Julho e o PS está muito estável em torno do actual valor desde pelo menos Janeiro de 2014.

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2.O CDS, que chegou a ter 9% logo antes da crise de Julho (e valores ainda mais altos nos primeiros meses depois das eleições), passou para valores na ordem dos 7% desde então.

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3. A CDU atingiu o seu máximo por alturas de Novembro de 2013 (13%) mas caiu desde então (está com 11%). Já o BE, que vinha a cair até então, está estável entre os 6 e os 7%. A "narrativa" possível para os anteriores casos é fácil de intuir, mas esta história é um pouco mais enigmática, se é que há uma verdadeira história para contar.

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by Pedro Magalhães

Portugal nas decisões europeias: uma conferência

Posted April 24th, 2014 at 6:16 pm4 Comments

O tema, bastante a propósito, creio, é “Portugal nas Decisões Europeias”. Tudo começou com um estudo encomendado pela FFMS a Richard Rose e Alexander Trechsel. Trechsel é professor no Instituto Universitário de Florença. O primeiro, enfim, é uma das maiores figuras da ciência política mundial, cujo percurso e carreira estão maravilhosamente descritos numa recente auto-biografia. O estudo, examina em detalhe os aspectos que têm determinado a participação de Portugal nos processos de tomada de decisão a nível europeu e a eficácia e limitações dessa participação. Está dividido em cinco relatórios, que em breve serão disponibilizados ao público.

A conferência aproveita também os resultados de um segundo projecto da FFMS, de Augusto Mateus, que examina o impacto da integração europeia na sociedade e na economia portuguesas ao longo dos últimos 25 anos. Ambos os estudos serão apresentados no dia 16 ao longo do dia pelos seus autores, e comentados por especialistas e protagonistas portugueses e estrangeiros.

No final, uma mesa-redonda sobre a actual situação na Europa em véspera de eleições, não apenas com os mesmos Rose e Trechsel mas também com Michael Bruter e Catherine Moury. O primeiro da LSE e um dos principais especialistas mundiais no estudo da identidade europeia e dos movimentos de extrema-direita. A segunda da Nova, e uma das pessoas que em Portugal mais estudou as instituições europeias.

Deixo o programa completo abaixo, e esta ligação para mais detalhes e inscrições. Convido-vos a irem a Braga assistir. Vai valer a pena. Fazer isto na Universidade do Minho foi uma ideia que me propuseram e que me agradou imediatamente, e que para mim acaba por ter um significado adicional neste dia de hoje tão triste para a Universidade.

9h45
Boas Vindas
Pedro Magalhães, ICS e Fundação Francisco Manuel dos Santos
10h00
Países pequenos numa Europa grande: Portugal numa perspectiva comparada
Richard Rose, Instituto Europeu de Florença
Comentário: Baldur Thorhallsson, Universidade da Islândia e Álvaro Mendonça e Moura, representante permanente de Portugal na ONU
Debate
11h30
Coffee-Break
11h45
Portugal na UE: papel e influência nas políticas europeias
Alexander Trechsel, Instituto Europeu de Florença
Comentário: Anders Wivel, Universidade de Copenhaga e Jorge Vasconcelos, NEWES New Energy Solutions
Debate
13h15
Almoço
14h30
Portugal na UE: impacto económico
Augusto Mateus, Augusto Mateus e Associados
Comentário: José Tavares, Universidade Nova de Lisboa e Manuel Caldeira Cabral, Universidade do Minho
Debate
16h00
Coffee-Break
16h15
Mesa-redonda - Portugal na UE e as eleições europeias
Michael Bruter, London School of Economics
Richard Rose, Instituto Europeu de Florença
Alexander Trechsel, Instituto Europeu de Florença
Catherine Moury, Universidade Nova de Lisboa
18h15
Encerramento

by Pedro Magalhães

O 25 de Abril e a memória do Estado Novo (III)

Posted April 13th, 2014 at 7:39 pm4 Comments

Pareceu-me ver algumas pessoas surpreendidas ou até desapontadas com o facto de quase metade dos inquiridos neste estudo do ICS acharem que o regime anterior teve pelo menos tantos aspectos positivos como negativos. Algumas últimas notas sobre este assunto:

1. Não tenhamos ilusões sobre o amor incondicional e unânime dos portugueses pela democracia. No último European Values Study, de 2008, apesar de praticamente 80% dos portugueses dizerem concordar com a ideia de que "a democracia é o melhor dos regimes apesar dos seus problemas", mais de 50% achavam também que na democracia "não se conseguem tomar decisões e há demasiado conflito", 40% achavam ser uma ideia pelo menos razoável haver "um líder forte que dispensasse o parlamento e as eleições" e 30% achavam que nas democracias "a economia funciona mal". Isto não faz de nós necessariamente inimigos da liberdade nem apoiantes da repressão política, como revelam as respostas neste inquérito sobre a maneira como deviam ter sido tratados os responsáveis por essa repressão no Estado Novo. Nem vejo como se possa dizer que isto nos torna obrigatoriamente território favorável aos extremismos ou que torna a nossa democracia vulnerável. Mas que não somos os europeus que mais amam a democracia liberal, isso não somos. Não somos dinamarqueses nem suecos nem noruegueses. Diga-se, contudo, que dinamarqueses, suecos e noruegueses têm a tarefa algo facilitada, porque têm bastante de algo que nós temos pouco: bom governo. Quando as democracias funcionam bem, quando têm instituições e políticas eficazes e pouca corrupção, o "apoio incondicional" à democracia vem mais naturalmente, digamos assim. Mas nós temos menos disso, pelo menos em comparação com as democracias mais avançadas, como sabemos por todas as fontes possíveis.

2. Questionados sobre o que melhorou e o que piorou nos últimos 40 anos, como vemos as coisas? O gráfico abaixo mostra o saldo entre a % daqueles que acham que a situação em cada domínio melhorou e a % daqueles que acha que piorou. Os dados disponíveis são dos dois estudos, 2004 e 2014.

melhor pior As áreas em que há mais portugueses a acharem que as coisas estão melhor do que aqueles que acham que estão pior são exactamente as mesmas que em 2004, com "habitação", "assistência médica", "educação" (não devem ter ouvido Durão Barroso sobre o tema), "protecção do ambiente", "protecção do património" e "nível de vida em geral" no topo. Há também mais portugueses a acharem que as coisas estão melhores do ponto de vista da convivência social e do civismo e até em termos de "independência nacional", o que pode surpreender alguns. E em todos estes casos, o juízo comparativo geral que é feito é ainda melhor (nalguns casos bem melhor) do que em 2004.

Mas nem tudo melhorou para a maioria dos portugueses. Na "situação da economia" a coisa está quase empatada, e menos favorável aos dias de hoje do que em 2004. Há mais portugueses a acharem que as desigualdades sociais são maiores hoje do que há 40 anos (do ponto de vista factual, é difícil negar: o índice de Gini após impostos e transferências em 1968 era cerca de 24 e hoje é mais de 30 ,o que não impede que o nível de vida médio tenha aumentado muito, coisa que de resto estes inquiridos também tendem a constatar). Justiça, e especialmente desemprego, corrupção e criminalidade/insegurança são domínios em que claras maiorias acham que as coisas pioraram.

Assim, há muitos domínios absolutamente fundamentais em que Portugal é sem dúvida visto como um país melhor do que há 40 anos, e alguns domínios igualmente fundamentais em que Portugal é visto como um país pior. A "rejeição absoluta e unânime do Estado Novo" de que nos falava o título do Expresso na semana passada, como se vê, não existe nem podia existir.

by Pedro Magalhães

O 25 de Abril e a memória do Estado Novo (II)

Posted April 12th, 2014 at 5:47 pm4 Comments

O Expresso divulgou mais dados do estudo do ICS sobre o 25 de Abril. Queria deixar algumas informações complementares em dois posts adicionais. Este é o primeiro:

1. Como se diz na peça e como realça Marina Costa Lobo na entrevista que dá ao Expresso, 79% dos portugueses dizem que a "nossa transição para a democracia é motivo de orgulho". A mesma questão tem sido feita várias vezes em Espanha. Não garanto ter detectado todos os estudos do Centro de Investigaciones Sociológicas em que ela foi colocada, mas aqui vai o que encontrei:

orgulho A ideia de transição "consensual" em Espanha versus uma transição de "ruptura" ou de "conflito" em Portugal desfaz-se perante os nossos olhos. Ela tem pouco ou nenhum reflexo nas visões actuais dos cidadãos. A dizer-se alguma coisa, é que os espanhóis já estiveram bem mais orgulhosos da sua transição democrática. Em Portugal, apesar de só termos dois estudos, pelo menos podemos dizer que não há mudanças relevantes nos últimos 10 anos. A transição portuguesa é hoje ainda mais consensual entre os portugueses do que a espanhola entre os espanhóis.

2. Para além disso, as divisões inter-partidárias sobre o significado do 25 de Abril e sobre a nossa transição parecem estar a dissipar-se. Isso já é parcialmente visível nesta questão do "orgulho na transição". No estudo de 2004, quando questionados sobre se estavam orgulhosos da nossa transição para a democracia, apenas 55% dos simpatizantes do CDS-PP concordavam, 25 pontos abaixo dos restantes inquiridos. Hoje, são 62% dos simpatizantes do CDS-PP, 18 pontos abaixo dos restantes. Mas é nas visões sobre o regime anterior e sobre o 25 de Abril que estas diferenças se tornaram mesmo irrelevantes. Se tratarmos as respostas "mais negativas que positivas", "tão positivas como negativas" e "mais positivas do que negativas" como uma escala ordinal de 1 a 3, eis as médias amostrais para as questões sobre o Estado Novo e sobre as consequências do 25 de Abril para simpatizantes do CDS e para os restantes inquiridos:

cds Em 2004, os simpatizantes do CDS eram significativamente menos críticos do Estado Novo e significativamente mais críticos do 25 de Abril que os restantes cidadãos. Contudo, em 2014, um simples teste de diferença de médias mostra que as diferenças que permanecem não são estatisticamente significativas. Todos os anos temos o debate de quem leva e de quem não leva o cravo, daqueles que dizem que a verdadeira data da democracia é o 25 de Novembro e não o 25 de Abril e outros folhetins do género. Este parece ser um caso, contudo, em que as elites políticas ainda vivem num mundo paralelo no qual a maioria dos seus concidadãos não se consegue rever.

3. A peça do Expresso mostra um gráfico sobre as percepções dos inquiridos sobre "que interesses e ideias" a Constituição de 1976 mais reflectia. Sem surpresa, aqueles que têm opinião sobre o assunto (e há quem não tenha) tendem a mencionar mais "os da esquerda". Mas deixem que vos mostre duas coisas. A primeira é, uma vez mais, uma comparação com Espanha. Sem surpresa, a esmagadora dos espanhóis não conseguia ver em 2000 na sua Constituição a defesa de interesses e sectores ideologicamente definidos. Em Portugal, sempre foi bastante mais fácil ver isso na Constituição de 1976.

const Mas quando questionadas estas mesmas pessoas sobre que interesses a Constituição reflecte hoje em dia "tendo em conta as revisões e alterações feitas à Constituição", o que pensavam em 2004 e o que pensam hoje?

constituição hoje Estes resultados de 2014 só não me surpreendem porque...já conhecia os de 2004. É muito pequena a percentagem daqueles que acham que temos ainda uma Constituição "de esquerda". Ou se quiserem ver as coisas de outro ponto de vista, aqueles que defendem a necessidade de "actualização" ou "desideologização" da Constituição são ouvidos por muito pouca gente. Pelos vistos, haveria mais clientela para quem aparecesse a defender que a Constituição tinha de ser menos de...direita.

by Pedro Magalhães