Pedro Magalhães

O 25 de Abril e a memória do Estado Novo (II)

O Expresso divulgou mais dados do estudo do ICS sobre o 25 de Abril. Queria deixar algumas informações complementares em dois posts adicionais. Este é o primeiro:

1. Como se diz na peça e como realça Marina Costa Lobo na entrevista que dá ao Expresso, 79% dos portugueses dizem que a “nossa transição para a democracia é motivo de orgulho”. A mesma questão tem sido feita várias vezes em Espanha. Não garanto ter detectado todos os estudos do Centro de Investigaciones Sociológicas em que ela foi colocada, mas aqui vai o que encontrei:

orgulho

A ideia de transição “consensual” em Espanha versus uma transição de “ruptura” ou de “conflito” em Portugal desfaz-se perante os nossos olhos. Ela tem pouco ou nenhum reflexo nas visões actuais dos cidadãos. A dizer-se alguma coisa, é que os espanhóis já estiveram bem mais orgulhosos da sua transição democrática. Em Portugal, apesar de só termos dois estudos, pelo menos podemos dizer que não há mudanças relevantes nos últimos 10 anos. A transição portuguesa é hoje ainda mais consensual entre os portugueses do que a espanhola entre os espanhóis.

2. Para além disso, as divisões inter-partidárias sobre o significado do 25 de Abril e sobre a nossa transição parecem estar a dissipar-se. Isso já é parcialmente visível nesta questão do “orgulho na transição”. No estudo de 2004, quando questionados sobre se estavam orgulhosos da nossa transição para a democracia, apenas 55% dos simpatizantes do CDS-PP concordavam, 25 pontos abaixo dos restantes inquiridos. Hoje, são 62% dos simpatizantes do CDS-PP, 18 pontos abaixo dos restantes. Mas é nas visões sobre o regime anterior e sobre o 25 de Abril que estas diferenças se tornaram mesmo irrelevantes. Se tratarmos as respostas “mais negativas que positivas”, “tão positivas como negativas” e “mais positivas do que negativas” como uma escala ordinal de 1 a 3, eis as médias amostrais para as questões sobre o Estado Novo e sobre as consequências do 25 de Abril para simpatizantes do CDS e para os restantes inquiridos:

cds

Em 2004, os simpatizantes do CDS eram significativamente menos críticos do Estado Novo e significativamente mais críticos do 25 de Abril que os restantes cidadãos. Contudo, em 2014, um simples teste de diferença de médias mostra que as diferenças que permanecem não são estatisticamente significativas. Todos os anos temos o debate de quem leva e de quem não leva o cravo, daqueles que dizem que a verdadeira data da democracia é o 25 de Novembro e não o 25 de Abril e outros folhetins do género. Este parece ser um caso, contudo, em que as elites políticas ainda vivem num mundo paralelo no qual a maioria dos seus concidadãos não se consegue rever.

3. A peça do Expresso mostra um gráfico sobre as percepções dos inquiridos sobre “que interesses e ideias” a Constituição de 1976 mais reflectia. Sem surpresa, aqueles que têm opinião sobre o assunto (e há quem não tenha) tendem a mencionar mais “os da esquerda”. Mas deixem que vos mostre duas coisas. A primeira é, uma vez mais, uma comparação com Espanha. Sem surpresa, a esmagadora dos espanhóis não conseguia ver em 2000 na sua Constituição a defesa de interesses e sectores ideologicamente definidos. Em Portugal, sempre foi bastante mais fácil ver isso na Constituição de 1976.

const

Mas quando questionadas estas mesmas pessoas sobre que interesses a Constituição reflecte hoje em dia “tendo em conta as revisões e alterações feitas à Constituição”, o que pensavam em 2004 e o que pensam hoje?

constituição hoje

Estes resultados de 2014 só não me surpreendem porque…já conhecia os de 2004. É muito pequena a percentagem daqueles que acham que temos ainda uma Constituição “de esquerda”. Ou se quiserem ver as coisas de outro ponto de vista, aqueles que defendem a necessidade de “actualização” ou “desideologização” da Constituição são ouvidos por muito pouca gente. Pelos vistos, haveria mais clientela para quem aparecesse a defender que a Constituição tinha de ser menos de…direita.

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