Pedro Magalhães

O 25 de Abril e a memória do Estado Novo (III)

Pareceu-me ver algumas pessoas surpreendidas ou até desapontadas com o facto de quase metade dos inquiridos neste estudo do ICS acharem que o regime anterior teve pelo menos tantos aspectos positivos como negativos. Algumas últimas notas sobre este assunto:

1. Não tenhamos ilusões sobre o amor incondicional e unânime dos portugueses pela democracia. No último European Values Study, de 2008, apesar de praticamente 80% dos portugueses dizerem concordar com a ideia de que “a democracia é o melhor dos regimes apesar dos seus problemas”, mais de 50% achavam também que na democracia “não se conseguem tomar decisões e há demasiado conflito”, 40% achavam ser uma ideia pelo menos razoável haver “um líder forte que dispensasse o parlamento e as eleições” e 30% achavam que nas democracias “a economia funciona mal”. Isto não faz de nós necessariamente inimigos da liberdade nem apoiantes da repressão política, como revelam as respostas neste inquérito sobre a maneira como deviam ter sido tratados os responsáveis por essa repressão no Estado Novo. Nem vejo como se possa dizer que isto nos torna obrigatoriamente território favorável aos extremismos ou que torna a nossa democracia vulnerável. Mas que não somos os europeus que mais amam a democracia liberal, isso não somos. Não somos dinamarqueses nem suecos nem noruegueses. Diga-se, contudo, que dinamarqueses, suecos e noruegueses têm a tarefa algo facilitada, porque têm bastante de algo que nós temos pouco: bom governo. Quando as democracias funcionam bem, quando têm instituições e políticas eficazes e pouca corrupção, o “apoio incondicional” à democracia vem mais naturalmente, digamos assim. Mas nós temos menos disso, pelo menos em comparação com as democracias mais avançadas, como sabemos por todas as fontes possíveis.

2. Questionados sobre o que melhorou e o que piorou nos últimos 40 anos, como vemos as coisas? O gráfico abaixo mostra o saldo entre a % daqueles que acham que a situação em cada domínio melhorou e a % daqueles que acha que piorou. Os dados disponíveis são dos dois estudos, 2004 e 2014.

melhor pior

As áreas em que há mais portugueses a acharem que as coisas estão melhor do que aqueles que acham que estão pior são exactamente as mesmas que em 2004, com “habitação”, “assistência médica”, “educação” (não devem ter ouvido Durão Barroso sobre o tema), “protecção do ambiente”, “protecção do património” e “nível de vida em geral” no topo. Há também mais portugueses a acharem que as coisas estão melhores do ponto de vista da convivência social e do civismo e até em termos de “independência nacional”, o que pode surpreender alguns. E em todos estes casos, o juízo comparativo geral que é feito é ainda melhor (nalguns casos bem melhor) do que em 2004.

Mas nem tudo melhorou para a maioria dos portugueses. Na “situação da economia” a coisa está quase empatada, e menos favorável aos dias de hoje do que em 2004. Há mais portugueses a acharem que as desigualdades sociais são maiores hoje do que há 40 anos (do ponto de vista factual, é difícil negar: o índice de Gini após impostos e transferências em 1968 era cerca de 24 e hoje é mais de 30 ,o que não impede que o nível de vida médio tenha aumentado muito, coisa que de resto estes inquiridos também tendem a constatar). Justiça, e especialmente desemprego, corrupção e criminalidade/insegurança são domínios em que claras maiorias acham que as coisas pioraram.

Assim, há muitos domínios absolutamente fundamentais em que Portugal é sem dúvida visto como um país melhor do que há 40 anos, e alguns domínios igualmente fundamentais em que Portugal é visto como um país pior. A “rejeição absoluta e unânime do Estado Novo” de que nos falava o título do Expresso na semana passada, como se vê, não existe nem podia existir.

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