Pedro Magalhães

O Bartoon explica.

Este debate é interessante, e eu já tinha prometido que ia falar nisto. Um pretexto, então.

Também não gostei especialmente de ver Ronald Dworkin, depois de descrever (correctamente) as consequências (catastróficas) que uma vitória dos Republicanos e a designação de juízes para o Supremo com o perfil prometido por McCain teriam para a interpretação da Constituição Americana, terminar dizendo que “if a remarkably distinguished candidate like Obama loses, this can be for only one reason.” Mas as razões porque não gostei são, eventualmente, diferentes das de Miguel Morgado:

1. Primeiro, não há nunca “only one reason”.

2. Segundo, ao contrário do que também diz Mark Danner – e retoma João Galamba – , não me parece nada que, “given the ‘fundamentals’, (…) the contest is so close”. So close? Dia 4 cá estaremos para ver. Mas isto não me parece nada close. Vantagens de 6-8 pontos no voto popular não é coisa de somenos e não aparecem todos os dias. Nixon ganhou a McGovern por 23 pontos em 1972, mas.. McGovern? De resto, esta vantagem – ou até bastante menos – é precisamente da ordem do que se poderia esperar given the fundamentals. Esta ideia de que Obama deveria estar a arrasar mas só não está por causa da raça perde sentido logo na parte do “arrasar”, porque negligencia a actual polarização do eleitorado americano e tudo aquilo que dá estabilidade ao seu comportamento, independentemente de factores de mais curto-prazo, tais como a economia ou desempenho do incumbent (mas dia 4 espero de não ter de engolir isto tudo).

3. Finalmente, não gostei porque este discurso é exactamente o contrário daquele que Obama tem tido e exactamente o contrário daquilo que lhe convém ter. Ainda bem que a NYRB só é lida por intelectualóides como eu e vocês que estão a ler isto.

Claro que importa perceber por que razão “este discurso é exactamente o contrário daquele que Obama tem tido e exactamente o contrário daquilo que lhe convém ter.” É porque, precisamente, o problema existe. Há quilómetros de estantes com coisas sérias escritas sobre o assunto: “Black and white voters do seem to prefer candidates of their own race in biracial elections and, consequently, it is exceedingly rare for black candidates to be elected outside of majority-minority political jurisdictions (Barker et al.1999, Canon 1999, Walton & Smith 2000)”. De resto, o grande mérito estratégico da candidatura de Obama e o seu enorme pragmatismo tem residido em fazer com que o problema pareça não existir, desactivando-o como um elemento legítimo de contestação política e retirando-lhe saliência. Claro que os Republicanos têm tentando activá-lo subtilmente, como outros textos na NYRB sugerem (o de Andrew Delbanco, por exemplo). Mas não o podem activar explicitamente: Obama não lhes deu a oportunidade, e fazê-lo por iniciativa própria seria suicídio. Daí que Jeremiah Wright tenha estado ausente da galeria de ataques a Obama, e só surgirá, se surgir, como táctica última de desespero total por parte dos Republicanos.

Quanto ao resto, os meus textos preferidos neste NYRB são os de Joan Didion e de Paul Krugman. Didion, como sempre, para além da elegantíssima escrita, tem um dedo especial para desenterrar a forma como os temas reais e mais importantes na vida americana são retirados do debate político e mediático e substituídos ou misturados com temas fictícios:

“The presence of Barack Obama in the electoral process allowed us to talk as if “the race issue” had reached a happy ending. We did not need to talk about how the question of race has been and continues to be used to exacerbate the real issue in American life, which is class, or absence of equal opportunity.”
“For a while, however, Democrats in general, and Barack Obama in particular, seemed to have lost the plot. Instead of running against the Republican economic record, Obama spent the primary season and the first few weeks of the general election campaign portraying himself as a “post-partisan” politician, someone who transcended the traditional party divide. In his speeches, he tended to hold both parties equally culpable for the country’s woes, denouncing the failed policies of right and left equally. (…) But all of that has changed in the past few weeks. (…) These days, Obama doesn’t try to place blame equally on right and left, he denounces “an economic philosophy that says we should give more and more to those with the most and hope that prosperity trickles down to everyone else,” and describes the crisis as “a final verdict on this failed philosophy.” He sounds, in other words, a lot like Bill Clinton in 1992. And that’s a good thing.”

Não acontece muitas vezes que a mensagem política “certa” seja “certa” de duas maneiras: por descrever correcta e profundamente a realidade, e por ser a mais adequada eleitoralmente. Mas desta vez aconteceu. Os Republicanos andam a agitar a frase “spread the wealth” que Obama disse a “Joe the Plumber”, como se isso o fizesse perder votos. Um erro, parece-me. O Bartoon de hoje explica tudo isto muito bem.

Fonte: Pew Center for the People & the Press

3 Comments

  1. PJMODM says:

    Também me parece lamentável que Dworkin, cujas análises, mais ou menos certeiras, sempre se caracterizaram pela multipolaridade conclua em termos parecidos com o adepto futebolístico que se queixa antes da partida do árbitro. Sobretudo depois de duas eleições de Busch júnior com o eleitorado dividido (e segundo um olhar liberal a distância entre Busch e McCain ainda é incomensurável). Será caso para perguntar «if remarkably distinguished candidates like Gore or Kerry lost, this could be for only one reason?” “to white?”.
    Se calhar importa essencialmente analisar as razões que podem determinar a previsível vitória de um candidato com menos de 50 anos em tempos agitados contra um homem que representa em muitos aspectos o ideal americano (em especial a independência, coragem e individualismo), sendo certo que o provável vencedor está longe de proporcionar a identificação com o eleitor médio (pois é demasiado culto, fluente, distinto e elegante). Entre essas razões parece-me que se contam a capacidade de evitar as cascas de banana lançadas pelos “puros” e “fracturantes” do lado democrata – desde ir atrás das opções de vida do espantalho do Alasca, a pactuar com o discurso de auto-comiseração.

  2. Anonymous says:

    A adoração a Obama é um bocado enjoativa, em especial de quem não conhece os States (os States não são só New York ou L.A.). Acontece que se agarraram ao ódio ao estereótipo de W. Bush e durante 8 longos anos andaram a ruminar esse ódio. De tal forma que o filme W. é uma decepção, mesmo com um realizador insuspeito.
    Não me admirava que a América votasse McCain por várias razões: 1. He´s one of them, no doubt! They know him, acknowledge his career and admire him.
    2. He’s old but still energetic.
    3. He’s got a hot running mate…
    4. And yes, he’s “white”, and 75% of Americans are white and they’re not sorry for that.

  3. SG says:

    O Lavoisier já tinha dito isso no século XVIII, só que aplicado à Química.
    Sempre que alguém enriquece 1 euro, há outra pessoa que empobrece 1 euro.
    Até me espanta que só agora os economistas tenham reparado nisso.

Leave a Comment

You must be logged in to post a comment.