Pedro Magalhães

O país e o que ele é

Só uma última nota, para já, sobre este assunto, em diálogo com o Portugal dos Pequeninos e outros sobre o tema das atitudes dos portugueses em relação a temas como os direitos dos homossexuais. Queria dizer, um pouco em conjunção com o que já disse aqui em relação à despenalização do aborto, que me parece que “aquilo que o país é” consiste não apenas nos valores, crenças e atitudes das “massas”, mas também a nível da actuação (e condições dessa actuação) das elites políticas.

Há muita gente que se pergunta por que razão em Portugal as respostas a estes inquéritos são as que são e as que se encontram em Espanha são muito diferentes. Um mero exemplo: em Março, 61% dos espanhóis declararam-se a favor da proposta do PSOE de legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em Portugal, como vimos, o apoio resume-se a 29%, se adicionarmos aqueles que não se importam que seja “casamento” àqueles que se incomodam apenas com a designação da coisa.

A explicação a que se recorre mais frequentemente é “sociológica”: a sociedade espanhola e os espanhóis são mais “progressistas”, “modernos”, “secularizados”, etc. Talvez, talvez. Mas importa não esquecer uma coisa importante: em Espanha, há uma clivagem religiosa que se encontra claramente politizada e é politizável. O PSOE tem um eleitorado secularizado, em contraposição ao eleitorado do PP. Um partido nestas condições não tem de ter medo de “activar” esta clivagem quando acha que não divide o seu eleitorado natural e pode até, entre os “não alinhados”, captar apoio adicional e apresentar o PP como um partido do “passado”.

Em Portugal, como saberão, a coisa é muito diferente. O PS nasceu alinhado com o PSD e o CDS na luta contra o PCP pela “democracia liberal”, e isso marcou a sua ancoragem social: deste ponto de vista, o PS é em vários aspectos mais parecido com o PSD do que com o PCP. Ora isto levanta, para qualquer líder do PS, um problema muito sério: até que ponto avançar com uma agenda dita “progressista” ou “libertária” sem correr o risco de alienar uma parte importante do seu eleitorado? É por estas e por outras que, como já escreveu Wolfgang Merkel, o PS português é “o mais conservador partido social-democrata da Europa”. E é por isso também que uma agenda política baseada neste tipo de temas tem dificuldades acrescidas em Portugal, porque não tem vozes político-partidárias que lhes dêem apoio inequívoco.

Aliás, até o BE tem tentado mitigar a sua associação com temas como os direitos dos homossexuais, a legalização das drogas e outros. Têm de lhes dar alguma atenção, para ir buscar um eleitorado mais jovem que acha que o PS é “mais do mesmo”. Mas estes temas não podem presidir à agenda do partido: como atraír o eleitorado comunista – também ele moralmente conservador em muitos domínios – se se fica preso a estes temas?

O que acabo de escrever é um bocado simplista, admito, e gostava de um dia de tratar isto com mais calma e seriedade. Mas para concluir como comecei, só queria dizer que o país também é isto, ou seja, o nosso sistema de partidos, a maneira como ele se encaixa (ou não) em clivagens sociais, a maneira como isso condiciona a capacidade dos partidos articularem determinadas propostas e a maneira como, por sua vez, isso impede que se verifiquem mudanças nas opiniões e atitudes dos eleitores.

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