Pedro Magalhães

"Outros, Brancos e Nulos"

Um amigo chamou-me a atenção para a possibilidade da parcela “Outros, Brancos e Nulos” estar a aumentar nas sondagens. Fiquei curioso, mas desde logo um pouco preocupado. Primeiro, fico sempre um pouco inquieto quando se trata de analisar o conceito de “Outros, Brancos e Nulos”, uma categoria residual, no sentido em que reúne coisas muito diferentes entre si. Segundo, receio sempre que os resultados das sondagens nesta categoria tenham um tratamento demasiado diferente de sondagem para sondagem. Na Marktest, por exemplo, notem como os resultados, mesmo depois de distribuídos os indecisos, atribuem 12,6% à categoria “Voto Branco/Outros” e como depois a Marktest “pondera” os resultados finais da seguinte forma: “ajustado o valor dos votos brancos e outros com base no valor obtido nas últimas Eleições para a Assembleia da República – Fev.2005” (deve ser gralha o Fev. 2005). Por outras palavras: a Marktest acha que a sondagem está a sobrestimar os OB’s e recalcula tudo atribuindo-lhes um valor mais baixo. O único outro caso que conheço bem é o do CESOP, onde as pessoas que declaram voto em branco são questionadas sobre a sua inclinação de voto. Só aqueles que dizem que votariam em branco E não demonstram uma inclinação de voto são tratados como votos em branco no final. E não sei o que se faz ou como se faz nas outras empresas. Tudo isto para dizer que:

1. Há pelo menos duas empresas que sentem que captam votos em branco acima das reais intenções dos inquiridos;
2. As empresas tratam desta assunto de formas muito diferentes.

Dito isto, podemos olhar, com muita cautela, para a evolução dos OBN’s. A primeira coisa que vi foi isto:

Se presumirmos a possibilidade de os OBNs estarem a mudar linearmente com a passagem do tempo e formos à procura desse padrão, ele está lá, e é de crescimento. Mas o que acontece se tornarmos esta evolução mais sensível a mudanças na tendência?

Crescimento até início do ano e depois diminuição. Mas tudo isto merece outro tipo de tratamento. Se o tratamento dos OBN’s é muito sensível ao que é feito por cada empresa, temos um caso onde controlar por house effects se torna particularmente importante. E se fizermos isso, o que vemos?

1. Entre Março de 2005 e Janeiro de 2011, a percentagem de OBN’s aumenta quase 4 pontos.
2. Entre Janeiro de 2011 e a segunda metade de Maio, desce 2,5 pontos.

Logo, a afirmação de que os OBN’s estão a subir é correcta a médio/longo prazo, mas incorrecta a curto-prazo. É o melhor que consigo concluir neste momento.

3 Comments

  1. José Santos says:

    1. Concordo com a sua conclusão (OBN a diminuir a curto prazo)
    2. Não concordo com a metodologia que utilizou para chegar lá, ie, baseado numa ferramenta estatística.
    3. Concretamente que ferramenta usou para calcular a 2ª curva, o LOESS?
    4. No seu gráfico devia estar bem assinalado (bola a cheio ou a cores) os resultados realmente verificados nas eleições anteriores.

    Melhores Cumprimentos,
    José Santos

  2. José Santos: obrigado pelos seus vários comentários e sugestões. Quer a base de dados? Teria muito gosto e enquanto leitor gostaria de saber que outras coisas se poderiam fazer com ela, muitas mais, de certeza. Se quiser mande-me o seu mail.
    Cumprimentos,
    Pedro

  3. Carlos says:

    Aqui na Galiza as eleições autárquicas espanholas vieram a pôr de manifesto por vez primeira, até onde eu tenho memória, o que se segue:

    – A maior parte ou practicamente toda a intenção de voto (ou voto directo ou voto declarado) que os inquéritos atribuiam ao voto en branco e a forças minoritárias materializou-se nas urnas. Não houve por tanto voto útil nem abstenção por acima da esperada. Houve um recorde histórico de voto em branco e voto nulo, coisas obviamente distintas que as empresas e muitas vezes misturam.

    a) O voto en nulo guarda correlaçom com a desafecção (pessoas desiludidas com os partidos políticos). Alcança máximos nas primeiras eleições democráticas, após a tentativa de golpe de Estado do 23/2/81, quando a corrupção generalizada do PSOE de Felipe González arredor do 1996-2000, e neste preciso momento. Mas não amosa tendência histórica crecente.

    b) O voto em branco, em troca, sim apresenta um crescimento praticamente constante e sustentado. Vinculo-o máis a um voto consciente e crítico, de pessoas cum nivel de formação elevado e residentes nas cidades. Sendo crescente, nos resultados reais alcança mínimos por baixo da tendência nos momentos de máxima mobilização da esquerda, precisamente quando mais voto útil houver (vitória da esquerda nas eleições autonômicas galegas de 2007 ou manutenção do PSOE de Zapatero no governo de Espanha em 2008).

    Nulos e brancos alcançaram o seu topo nestas últimas eleições de há apenas uma semana. O voto nulo não se recolhe (obviamente) nos inquéritos, mas sim o branco. Esta vez não só registou níveis máximos nos históricos de inquéritos senão também nos resultados nas urnas. Não houve portanto voto útil.

    – As recentes mobilizações da geração à rasca espanhola (hashtags #15m, #spanishrecvolution, #nolesvotes) incidiu significativamente en muitas cidades, no sentido não de elevar a abstenção mas antes de reduzir o voto aos dous grandes partidos (PP e PSOE) e aumentar o doutras forças quer à dereita quer à esquerda (UPyD, IU). Porém acho que o maior efecto sobre o sentido do voto foi minorizar em alguma medida a esperada vitória da dereita(desmobilizando voto xuvenil conservador, fundamentalmente), que sem o influxo destes protestos teria sido mais contundente.

    Mas voltando ao seu artigo, o que quer dizer isto?

    Na minha opinião, e sem conhecer muito de perto a situação política portuguesa, na Galiza o voto útil rara vez se tem manifestado previamente nos inquéritos, ou tem-se manifestado em uma medida menor á verdadeira.

    Se esa descida do voto OBN é ou não voto útil ao PS já é fariha doutra moinhada, como dizemos aqui. Eu duvido-o com base na nossa experiência, que não tem de ser a vossa necesariamente.

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