Pedro Magalhães

Racismos

Segundo Alberto Gonçalves, “Obama concentrou na quase totalidade o voto preto, avalanche que nem a tradicional predilecção das minorias pelo partido democrático justifica. Com a eleição de Obama, insusceptível de repetição noutra democracia, o racismo dos brancos americanos tornou-se, pelo menos oficialmente, uma memória triste. O racismo dos pretos americanos é, se calhar, uma questão actual. A que não convém aludir.”

Suponho que isto quer dizer que o facto de John Kerry ter captado “apenas” 88% do voto dos negros que participaram na eleição em 2004 e Obama ter captado 95% do mesmo voto em 2008 deverá ser visto como expressão do “racismo dos pretos americanos”. Nem imagino como Alberto Gonçalves interpretará o facto de, em 2008, 62% do voto asiático ter ido para Obama, contra 56% do mesmo voto para Kerry em 2004. Ou o facto de 67% do voto hispânico ter ido para Obama, contra apenas 53% do mesmo voto ter ido para Kerry em 2004. Só pode ser, claro, o anti-branquismo dos castanhos e dos amarelos. Realmente, sobre questões de “raça” e voto, não tem sido fácil dar uma para a caixa.

19 Comments

  1. Anonymous says:

    E já Bill Clinton tinha captado 83% e 84% do voto negro, respectivamente em 1992 e em 1996.

    Costumo ler com apreço as crónicas no DN online, mas de facto este artigo de Alberto Gonçalves é de uma exagerada mistura de “bias” (já que falamos de eleições americanas) e ressentimento.

    João Pedro

  2. Anonymous says:

    Não posso concordar.
    Talve nem com um nem com outro.
    Há sempre uma tendencia para votar em alguem que sentimos proximo, o conterraneo leva sempre mais uns votos que o forasteiro.
    Mas neste caso parece errado dizer que Obama conquistou apenas mais 7% dos votos que Kerry. Porque neste caso 7% são 60% dos votos restantes. Kerry conquistou 7 em 8 dos votos negros, Obama 19 em 20.
    É completamente diferente um crescimento de 7% quando já só há 12% para crescer de um crescimento de 14% em 47%.
    O voto motivado por razões de raça, razões de vizinhança, foi muito maior no caso negro que no das restantes raças e etnias americanas.

    Cam

  3. LA-C says:

    Para não falar da dificuldade inicial que Obama teve para penetrar no eleitorado negro. Não esquecer que Obama teve de lutar a sério por esse eleitorado que, inicialmente, se inclinava para Hillary Clinton.

  4. Anonymous says:

    la-c, exacto. Por alguma razão o Bill Clinton era conhecido como o “mais negro” dos presidentes norte-americanos.

    João Pedro

  5. Cam: ou eu estou a pensar mal, ou o seu raciocínio pode ser virado de pernas para o ar. A probabilidade de um negro votar num candidato DEM aumentou 7 pontos percentuais, ou seja, cresceu em 8% . A probabilidade de um hispânico votar num candidato DEM aumentou 14 pontos, ou seja, cresceu em 26%. Olhando para as coisas por este lado, o candidato teve um efeito muito maior na mudança do comportamento dos hispânicos do que na dos negros americanos.

    Mas o que quero mesmo dizer, claro, não é isso. Eu não ignoro que o voto pode ser afectado por considerações, entre outras, da raça do candidato, e disse isso mesmo aqui (http://margensdeerro.blogspot.com/2008/10/o-bartoon-explica.html). O que realmente me parece é que o raciocínio do autor do texto que comento, na base dos dados existentes, é completamente abusivo.

  6. rui tavares says:

    Para não falar do aumento de voto entre os brancos urbanos, que foi tão expressivo como nas outras categorias. Será que são brancos anti-brancos?

  7. tric says:

    eu não percebo porque razão se poderia fazer uma analise em termos de raça caso McCain tivesse ganho ( e os estatisticos preparavam-se para utilizar um argumento raçista ( efeito de bradley(?)) para justificar o erro das sondagens se tal acontecesse),mas o contrario ja não é permitido, é erro, é abusivo…

  8. João Vasco says:

    tric:

    O “Bradley effect” é uma possível causa para erros em sondagens, portanto se não existissem quaisquer erros nas sondagens não faria sentido falar em “bradley effect”.

    Se as sondagens tivessem subtimado Obama, aí seria possível falar num “reverse Bradley” effect, com Obama favorecido “face às sondagens” por ser negro.

    A única maneira de, com sondagens certeiras (pelo menos as que eu consultei no 538, que foi o mais certeiro de todos:) ) falar em “reverse bradley effect” seria assumir que as outras sondagens estavam, por outras razões, a substimar Obama, e que os erros todos se contrabalançaram.

    Mas aí, para assumir um “reverse Bradley effect” também terá de assumir um enviesamento anti-democrata nos meios de comunicação americanos. E aposto que não quer ir por aí…

  9. tric says:

    O “Bradley effect” é uma possível causa para erros em sondagens, portanto se não existissem quaisquer erros nas sondagens não faria sentido falar em “bradley effect”.

    eu só disse que os estatisticos ja tinham preparado uma desculpa para o caso de errarem, por sinal uma desculpa racista…

    e não acho abusivo se considerar que os afro-americanos foram racistas na hora de votar, acho até natural e normal e devem ter ido votar em muito maior numero que as eleições anteriores

  10. João Vasco says:

    tric:

    Não era uma desculpa: era um fenómeno histórico. As estimativas falhavam sempre mais quando o canidato era de cor, e falhavam sempre no sentido de substimar o candidato. Por alguma razão seria…

    Mas, se tem acompanhado este blogue e outros sobre o tema, saberia que gradualmente esse fenómeno foi desaparecendo, e a opinião dominante é que não haveria “bradley effect” – isso era algo do passado.

    Claro que nenhuma das eleições em que tinha ocorrido “bradley effect” era para a chefia da casa branca, portanto poderia ser que o “bradley effect” ainda acontecesse – realmente não havia garantias.

    Por isso, faria todo o sentido assumir que se as sondagens se tivessem enganado nos resultados uma das explicações mais prováveis seria o “Bradley effect”. E reciprocamente não ter grandes razões para assumir que existiu “bradley effect” (o que não quer dizer que não tenha existido racismo…) porque as sondagens acertaram.

    Agora se existiu racismo ou não, isso será uma mera questão de opinião. Não pode existir “bradley effect” sem racismo, mas pode existir racismo sem “bradley effect” (basta que ninguém se envergonhe do seu voto racista). Mas sem Bradley effect não existe nenhum indicador estatístico objectivo que possa sustentar a ideia de que ocorreu racismo nas urnas – quer branco, quer negro. O facto é que Obama subiu as suas votações mais entre os brancos urbanos que entre os afro-americanos.

  11. Anonymous says:

    Concordo plenamente com “Cam”, e ainda mais com Alberto Gonçalves.

    Não vale a pena fazer malabarismos com números, Pedro Magalhães. O Pedro está completamente inclinado para os democratas qualquer que fosse o candidato. Desde Hillary e do dedo, lembra-se. Depois reciclou-se em Obama…

    Uma candidatura que suplanta a sua homóloga anterior tem que crescer em algum lado. Esta cresceu nos brancos, pretos, amarelos e castanhos e, eventualmente nos (peles) vermelhas.

    Fazer taxas de crescimento com as bases anteriores, ainda por cima em percentagem, pode aceitar-se para leigos. O Pedro Magalhães não pode fazê-lo…

    ” A probabilidade de um negro votar num candidato DEM aumentou 7 pontos percentuais, ou seja, cresceu em 8% . A probabilidade de um hispânico votar num candidato DEM aumentou 14 pontos, ou seja, cresceu em 26%. Olhando para as coisas por este lado, o candidato teve um efeito muito maior na mudança do comportamento dos hispânicos do que na dos negros americanos.”

    Por favor, mantenha algum rigor. Daqui a uns meses, eventualmente 4 anos, pode ter que engolir todos estes comentários. Isso é fácil para políticos e jornalistas. Para si, não vai ser.

    Cumprimentos,

    PC

  12. João Vasco says:

    «Uma candidatura que suplanta a sua homóloga anterior tem que crescer em algum lado. Esta cresceu nos brancos, pretos, amarelos e castanhos e, eventualmente nos (peles) vermelhas.»

    Se isto assim é, então não tem nada de mais que tenha crescido entre pretos como cresceu entre todos esses grupos demográficos. Não é racismo.

    E se a percentagem de votos democratas nesse grupo demográfico já era de 88%, um crescimento ligeiro pode naturalmente elevar esse valor aos 95%. Um cresciemnto que é tão ligeiro que até é inferior ao de vários outros grupos demográficos (em termos absolutos e relativos).

    Assim, os seus próprios argumentos desmentem a sua tese de que aquilo que Alberto Gonçalves e “cam” afirmam faz algum sentido. À luz dos dados não faz: é disparate. Ambos usam os dados para fundamentar uma alegação que não encontra suporte nesses mesmos dados.

  13. tric says:

    “E se a percentagem de votos democratas nesse grupo demográfico já era de 88%, um crescimento ligeiro pode naturalmente elevar esse valor aos 95%. Um cresciemnto que é tão ligeiro que até é inferior ao de vários outros grupos demográficos (em termos absolutos e relativos).”

    como é que você dizer isso!!?? em termos teoricos ( exagerando )

    se você suposer que 10 afro-americanos votaram nas penultimas eleições,então aprox. 9 pessoas votaram nos democratas ( 88% )

    se você suposer que 100 afro-americanos votaram nas ultimas eleições então 95 pessoas votaram nos democratas ( 95% )

    não será abusivo tambem, em termos de %, comaprar o voto dos afro-americanos em distintas eleições?

  14. Anonymous says:

    88 x 1,26 ~ 110%

    Faz sentido?

    Cam

  15. João Vasco says:

    tric:

    Houve praticamente tantos eleitores negros a votar nos democratas quando o candidato destes foi Clinton, Kerry ou Obama (quanto a Al Gore não sei de cor, mas imagino que o valor seja semelhante).

    Agora dirão: não são praticamente os mesmos – para Kerry foram 88% e para Obama foram 95%. Pois, só que crescimentos dessa ordem verificaram-se em quase todos os grupos demográficos. Por exemplo, voto democrata dos brancos urbanos cresceu mais de uma eleição para a outra que o dos negros.

    Assim sendo, os dados não permitem sustentar a tese de que houve racismo por parte do eleitorado negro. Até pode ter havido, mas os dados não permitem mostrar que houve.

    Creio que isto não é muito complicado.

  16. “To think that this election was a shoo-in for him [Obama] among blacks because of our affinity for our own people is disingenuous at best and at worst insults our intelligence. And it ignores the fact that many other blacks have run for President and walked away without winning a primary, much less the presidency. Neither Shirley Chisholm, Jesse Jackson, Al Sharpton, Alan Keyes nor any other black candidate amassed black support the way Obama did.”

    T.D. Jakes, na última Time.

    And I’m done here.

  17. Anonymous says:

    Esta discussão sobre o (não) racismo dos pretos americanos está a ficar uma bocado ridícula. Nem imagino o que é pertencer a uma “comunidade” em que há (praticamente) pensamento único. Já acontecia antes de Obama. A Condoleeza Rice não deve poder entrar em certas “neighbourhoods”, como D.C., deve estar proscrita. O Powell já lá pode ir agora…
    Comparar isto com o tão badalado e exorcizado racismo branco, que é como as bruxas (as espanholas), mas permitiu uma quase paridade entre Obama e McCain.
    Portanto, a questão não é de taxas de crescimento. Quais os grupos que mais evoluíram (considerando que votar Obama é evolução…)?

    PC

  18. Anonymous says:

    Quando se chegam a valores da ordem dos 80 a 90 % não se pode analisar o crescimento absoluto ou relativo dos que votaram mas deve analisar-se a evolução dos que não votaram.
    Dizer que a subida foi de 26% nos hispanicos e apenas de 8% nos negros para concluir que a evolução foi maior nos hispanicos é um erro crasso. A votação da população negra não permitia subidas acima dos 13%. Com uma subida de 13% já tinham 100% da votação. Com votações tão proximas dos 100% deve analisar-se não a evolução dos que votaram mas sim a evolução dos que não votaram. A não ser assim chegamos a conclusões absurdas como a que aqui apresentam, a exigirem que 110% dos negros (88*1,26) votem no seu candidato para se poder afirmar que a subida da votação tão expressiva entre o eleitorado negro como entre o eleitorado hispanico.
    19 votos em 20 possiveis é um votação digna de uma antiga ditadura comunista.
    A subida de 8/9 para 19/20 parece-me indicar que não se deveu apenas a motivos de aderencia a um projecto politico mas tambem a motivos de identificação pessoal com o candidato. Se é possivel chamarmos a isso um racismo negro? Duvido, para isso seria preciso que os novos votos conquistados o tivessem sido por razões racistas, por aversão aos candidatos brancos. Não me parece que se possa classificar como racismo a adesão a um candidato “vizinho”. Da mesma forma que não qualificaria de votação racista se os italo-descendentes tivessem uma maior votação num italo-descendente que noutro candidato. Ou se o candidato nascido e criado em determinada região tivesse uma maior votação nessa cidade. Isso é o pão nosso de cada dia nas eleições. Há uma maior adesão porque há um maior sentimento de proximidade.

    Cam

  19. Caro Pedro, procurei escrever no “Era uma vez na América” algo sobre o assunto… Espero ter conseguido dar um (modesto) contributo para a caixa que, como correctamente referiste, está um bocadinho vazia…

    Abraço!

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