Pedro Magalhães

Sobre o novo Conselho de Ciências Sociais e Humanidades e um post

Chamam-me a atenção para o facto de alguns tweets meus serem citados num post do Câmara Corporativa a propósito da composição do Conselho Científico de Ciências Sociais e Humanidades da FCT.

As citações estão absolutamente correctas, e têm a ver com a minha surpresa pelo facto de este Conselho ser agora presidido por alguém que trabalha na área das Ciências da Vida: em antropologia forense, um ramo da antropologia física ou biológica (o meu amigo Luís Aguiar-Conraria discorda aqui desta minha leitura e dá provas do elevado mérito científico da presidente, coisa de que não discordo mas não é o meu ponto). Não tenho nada contra  o cruzamento entre diferentes ciências e áreas científicas (pelo contrário, afinal, tenho um projecto onde trabalho com economistas, linguistas e engenheiros), mas surpreende-me e incomoda-me um pouco que esta introdução no CCCSH de pessoas (e há mais do que uma) de áreas que não são das ciências sociais e humanidades não tenha, que eu saiba, contrapartida na introdução nos outros três conselhos (de Ciências da Vida e da Saúde, Ciências Exactas e da Engenharia e Ciências Naturais e do Ambiente) de, por exemplo, sociólogos, linguistas, historiadores, psicólogos, etc. Fracassada assim a prova de que estes mudanças visam promover globalmente cruzamento de saberes e interdisciplinaridade, é difícil não interpretar isto – desculpem o “corporativismo” – como uma menorização daquilo que fazemos.

Contudo, incomoda-me também ser citado num post – e no mesmo ponto – em que se atacam pessoas como João Carlos Espada e Rui Ramos. Chamo “ataques” e não “críticas” porque, na verdade, não consigo discernir argumentos. O IEP liderado por João Carlos Espada teve uma vez uma avaliação menos boa da FCT? Eu, que cheguei a colaborar no IEP, tenho de facto alguma pena que não tenha apostado mais na investigação e que dele saia um pensamento que me parece excessivamente carregado e homogéneo do ponto de vista político e ideológico. Mas isso é uma opção como outra qualquer e, mais importante, nada disto impede que João Carlos Espada seja uma pessoa reputada na área onde trabalha (a teoria política) e com publicações nacionais e internacionais em boas revistas e editoras. Não percebo onde é que está desqualificado para servir num conselho deste género.

E depois há Rui Ramos. Não sou historiador nem especialista em nada que o meu colega no ICS tenha estudado. Mas qualquer pessoa de bom senso e boas intenções pode constatar que Rui Ramos tem uma obra vastíssima, muitíssimo citada pelos seus pares, nalgumas das publicações mais marcantes da historiografia portuguesa recente. Rui Ramos é polémico, seja como historiador seja como colunista? Qual é o problema? Colaborou com o Expresso na popularização do seu trabalho? Qual é o problema? São coisas que só sucedem a quem é importante na sua área, e é isso mesmo que Rui Ramos é: um dos mais importantes historiadores portugueses. Desqualificado exactamente em quê para servir no Conselho?

Em suma, o que me parece é que atribuir a estes ataques motivações estritamente políticas e ideológicas é usar terminologia demasiado elegante.

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