Pedro Magalhães

Últimas palavras

Assim de repente, ocorrem-me três maneiras de falar destas sondagens e da sua relação com as eleições de Domingo:

1. A primeira é a que se tem seguido até ao momento: pôr os números a falar o mais possível. Haveria eventualmente mais coisas que se poderia fazer, mas a verdade é que com quatro sondagens, ou mesmo com as 13 ao longo de toda a campanha e pré-campanha, há limites para o que se pode fazer. As ideias gerais não vou repetir: estão aqui, aqui, aqui e aqui. Já agora, algumas das coisas que fizemos decorreram directa ou indirectamente de comentários aqui no blogue. Só por isso, já valeu a pena abrir a caixa. Obrigado a todos.

2. Tudo o que diz respeito ao ponto anterior partiu sempre da pressuposição que a única fonte de erro na capacidade das sondagens medirem as intenções de voto no momento em que foram feitas era o erro aleatório associado à selecção de uma amostra que dava a mesma probabilidade a cada membro do universo de ser seleccionado. Sabemos que as coisas não se passam assim. Nenhuma amostra é verdadeiramente aleatória, mesmo que se tente (as pessoas não são bolas nas esfera do Euromilhões, e recusam-se a ser “medidas” ou não estão “lá” para ser medidas quando “deviam” estar). Algumas sondagens até são por quotas. E há uma miríade de potenciais problemas de medição daquilo que se quer medir. Já discuti isto neste blogue muitas vezes, mas no confronto entre as eleições e as sondagens, quase todas as eleições mostram que há um partido ou mais partidos que são sobrestimados pelas sondagens e outros que são subestimados. Claro que isso se pode dever a algo que ocorra entre o trabalho de campo e a eleição. E claro que, ao contrário do que defendem algumas pessoas particularmente imunes ao confronto com os factos, nem sempre são os mesmos partidos que são sobrestimados ou subestimados. Mas isto sugere também a possibilidade de que haja enviesamentos sistemáticos comuns a todas as sondagens num dado contexto eleitoral. Logo, tudo o que resulta das análises descritas no ponto 1 tem de ser visto também deste ângulo mais céptico.

3. Finalmente, a eleição do dia 7 está no futuro, enquanto as sondagens estão no passado. Entre o passado e futuro nem sempre ocorrem coisas que provoquem mudanças nas intenções dos eleitores ou, pelo menos, se ocorrem, dão às vezes ar de se cancelarem umas às outras. Mas há sinais de que, noutros casos, ocorrem. A abstenção é talvez o problema fundamental. Por um lado, está ligado ao ponto anterior (de medição): como apurar se, num determinado momento, alguém tenciona realmente abster-se ou não? As pessoas resistem – porventura cada vez menos – a admitir isso e, logo, dão intenções de voto que não se realizam. Se essas forem sistematicamente diferentes das do que realmente votam, temos o caldo entornado. Mas é também um problema de diferença entre intenções presentes e comportamentos futuros: eu posso achar hoje que vou votar e, no Domingo, arranjar algo melhor para fazer. Se quem chega a esta conclusão for sistematicamente diferente daqueles que não chegam, o caldo entorna-se ainda mais. Em geral, todos os estudos mostram, inclusivamente em Portugal (shameless plug), que eleições de alta abstenção tendem a exibir maiores diferenças entre as sondagens e os resultados. E esta do dia 7 é, claro, desse terrível género.

Tudo isto para dizer aquilo que estas sondagens dizem sobre o que ocorrerá no Domingo tem limites, uns estimáveis (ponto 1), outros infelizmente não (pontos 2 e 3). Logo, se se importam com os resultados, o melhor que têm a fazer é ir votar. E é com esta nota profundamente cívica – abstendo-me de estimar a probabilidade de um voto individual ser decisivo para não desmoralizar ninguém – que me despeço até 2ª feira.

10 Comments

  1. Anonymous says:

    Po essa odem de ideias não vale a pena fazer sondagens, pois as empresas de sondagens, quando falham, arranjam sempre desculpas. Por favor…

  2. Pela sua ordem de ideias, as sondagens só servem se for para fazer previsões de resultados eleitorais. Onde é que o caro anónimo foi buscar essa ideia?

  3. O “anónimo” não deve ter reparado no blog em que entrou: MARGENS DE ERRO… sim, de ERRO…
    AS sondagens são isso mesmo, sondagens: como quando se explora um terreno para ver se há petroleo no sub-solo… Faz-se uma sondagem…Não se sabe nunca exactamente quanto lá pode estar…
    Isso só perfurando e extraindo…
    Neste caso, Pedro Magalhães presta-nos um serviço, com este blog, e deixa-nos alertas.
    Mas, claro, que quando há erros de 20%, por exemplo, podemos então dizer que algo deverá ter estado mal… E procurar corrigir (algo que aconteceu já em Portugal…).
    Obrigado Pedro. Que não sejam os “anónimos” a fazê-lo desanimar… até porque temos mais duas eleições à porta…
    O Moscardo.

  4. António P. Castro says:

    Parece-me evidente a “qualidade” das sondagens que V. perpetra…
    Acho que a Universidade Católica tem qualquer coisa a dizer ao País, depois desta vergonha.
    E você, a que é que vai dedicar-se a partir de agora?

  5. Tiago Abreu says:

    Espero uma palavra sua sobre a porcaria de sondagens que andou a fazer. Enganou-se e não foi pouco, errou clamorosamente no vencedor das eleições e enganou-se no seu ódiozinho de estimação, o CDS.

    2%?? Ouvi-o dizer na RTP que terá de rever algumas coisas. Proponho-lhe que reveja tudo sob pena de levar para a lama o nome de uma instituição que dava garantias de seriedade e imparcialidade no seu trabalho em sondagens, a Universidade Católica.

    Esqueça lá guerras antigas que metem outras AMOSTRAs…

    Um pedido de desculpas não lhe ficava nada mal.

    De qualquer maneira parabéns pelo blog que visito todos os dias e que nos mantém actualizados sobre o que se vai fazendo no mundo virtual das sondagens (??).

    Já agora fale de tendências…as mesmas que deram o PS sistemáticamente a ganhar as eleições. Que se terá passado no dia de reflecção?? Terá sido o golo ao último minuto a mudar o sentido de voto de mais de 15% de Portugueses????

  6. Henrique says:

    Tudo do melhor… Estrondoso.

  7. Henrique says:

    Tudo do melhor… E pensar que vocês ganham a vida a fazer sondagens. Estrondoso, de facto.

  8. Libertas says:

    «Disse o Pedro Magalhães:
    Caro Libertas. Deixe-me lembrar que:

    * 3,8 < 4;
    * Porque não presume antes que os OBN são 0? Se o fizer, o CDS-PP fica com 4% na Marktest. Infelizmente, nem assim pode dizer que “mais uma vez, o CESOP ‘prevê’ – aspas intencionais – menos percentagem para o CDS que os outros institutos”.
    * 5 para OBN é uma pressuposição pouco menos irrazoável que 0.

    Mas não me leve a mal. Num contexto onde se diz que cada vez menos as pessoas se interessam pela política e pelos partidos, tanta paixão pelo CDS é uma coisa que vejo positivamente.»

    Caro Pedro
    Com eu tinha dito, este domingo veríamos quem tinha razão. Parece que deve uma explicação não só ao CDS mas tb ao país.
    Luís Casalta

  9. Anonymous says:

    Isto é como no futebol: podem pôr todos os meios electrónicos que quiserem que, com árbitros corruptos e tantos comentadores e jornalistas coniventes a roubalheira há-de sempre continuar.
    Um erro é aleatório, vocês “enganam-se” sempre para favorecerem os mesmos e com esses “erros” fazem a sua campanha, melhoram os seus resultados (porque nunca ninguém, especialmente os indecisos gosta de ir votar em quem julga que vai perder e porque, em conjunto com os bons exemplos de jornalismo socretino, dão pretextos e tempo de antena às oposições internas) e são pagos por eles com o dinheiro que nos roubam.
    Tenham vergonha, cambada de ruis oliveiras e costas. Quanto mais se baixam, mais se vos vê o avental!
    (podes não publicar à vontade mas é só para não pensares que nos comes por estúpidos).

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