Pedro Magalhães

Uma impressão de campanha

Escreve aqui alguém que, ao contrário do que alguns possam imaginar, não percebe rigorosamente nada de campanhas políticas. Mas queria notar apenas, de forma meramente intuitiva, o contraste enorme entre a campanha do PS para estas europeias e a dos restantes partidos. Há na campanha do PS uma quase total “despersonalização”. Os cartazes mostram figurantes contratados, falam de eventos históricos e só ao longe, estabatidas, estão as personalidades políticas, algumas delas sem relevância directa para os dias de hoje. Vital Moreira está ausente dos cartazes e parece, nas suas aparições públicas, uma pessoa algo diferente daquela que se conhecia de outras aparições noutros contextos. A ideia de meter Ana Gomes e Elisa Ferreira nas listas, se era para lhes dar visibilidade acrescida para as suas campanhas posteriores, não está a funcionar muito bem. Pelo contrário, BE, CDS-PP, PSD e até a CDU apresentam os seus candidatos, mesmo que alguns sejam completos desconhecidos. E nota-se um esforço do PS em remeter o seu discurso para questões “europeias”, ao passo que os restantes partidos não passam sem uma ligação da Europa aos problemas nacionais, ou seja, àqueles que interessam aos eleitores.

Imagino que isto seja deliberado, pensado, eventualmente até testado com focus groups e sondagens. E daí talvez não. Talvez esta campanha do PS esteja a ser conduzida e organizada por pessoas sem competência para a função. Já sucedeu no passado com vários partidos, em várias eleições. E costuma ser um indicador interessante sobre a “saúde” de um partido, a sua coesão e motivação e o grau de isolamento da sua liderança. Dentro de poucas semanas, saberemos melhor.

7 Comments

  1. Caro Pedro Magalhães,
    considero o seu comentário útil, interessante e a merecer reflexão por parte dos interessados…

  2. Luis Ruano says:

    Concordo com a análise, mas como vê a péssima qualidade gráfica dos outdoors e dos slogans do PSD? As plataformas on-line (politicadeverdade.com e psd.pt) também têm uma ar inacabado, embora aqui se note mais os esforço.
    Sinais também de deriva?

  3. Bem, acho que são coisas diferentes. As campanhas têm diferentes graus de profissionalismo e profissionalização na sua concepção e execução, e em Portugal o nível é genericamente baixo, pelo menos em comparação com outros países que conheço (falo apenas da manifestação exterior da coisa, que por dentro conheço nada). No caso do PS, contudo, é outro aspecto: são as opções estratégicas. Qual é o tom geral da mensagem; a eleição é uma escolha entre quê e quê, etc. Que até pode ser óptima e inteligente, que sei eu. Mas não me parece.

  4. Vasco Leão says:

    Elisa Ferreira e Ana Gomes nas listas do PE para ajudarem as campanhas posteriores, ou seja, as autárquicas? É precisamente o contrário: vão às campanhas posteriores (autárquicas) para garantirem os lugares do Parlamento Europeu! As autárquicas é o pagamento ao partido pelos lugares na Europa.

  5. CLeone says:

    Caro Pedro Magalhães,
    Genericamente de acordo, apenas uma reserva: o primeiro cartaz do PS era só Vital. E pelo menos em Lisboa aprece ter sido retirado em boa medida pelos sucessivos casos de destruição deliberada.
    Uma outra reserva, aliás: os cartazes seguinntes: Soares, Guterres, Sócrates, efectivamente mal feitos (baços), podem ser entendidos como formas menos óbvias de personalização (PM’s do PS como os reais europeístas). Mas adiante. Talvez o cerne de tudo isto seja o baixo profissionalismo, o apostar no marketing em detrimento da ideologia (mesmo Vital tem perdido muitas vezes o foco da mensagem, contra a abstenção), apesar de o marketing ser incomparavelmente mais fraco que noutros países. Já as camapnhas negativas parecem refinar-se à vista de todos nós…

  6. Anonymous says:

    “…Eleições Europeias. Quais foram os momentos mais marcantes ou relevantes para Portugal na sua relação com a Europa comunitária? Entrada de Portugal na CEE, Adesão de Portugal ao Euro e Assinatura do Tratado de…Lisboa.
    Quais foram os governantes responsavéis por esses registos históricos? Esses, não é? A que partido político pertencem? Todos do Partido Socialista, não é? Então a Europa em Portugal é sinónimo de PS…e não vamos aproveitar esta ligação “genética” ou “orgânica” do PS à Europa, numa campanha eleitoral para o Parlamento Europeu?!?…”

    Não sei se foi isto que passou pela cabeça dos responsáveis pela campanha do PS, mas se foi, não me parece que sejam de todo “incompetentes para a função”…
    De resto, percebe-se que os outdoors estão a sair por fases temáticas e crescentes…primeiro, o candidato(a personalização), depois o partido, agora o povo português…não me espantaria que os próximos (caso os haja) fechassem o ciclo, regressando ao candidato.

    (Caro Vasco Leão: a sério que acredita que alguém que seja eleito Presidente da Câmara do Porto ou de Sintra, renuncie ao lugar e vá para deputado europeu?!?)

    Carlos Pinto

  7. Na verdade, já há os cartazes com VM e alguns dos outros nomes da lista. Tem tudo uma lógica inexorável. Isto só mostra que, tal como suspeitava, eu não percebo nada de campanhas.

Leave a Comment

You must be logged in to post a comment.