Pedro Magalhães

Uma previsão dos resultados das presidenciais (1)

Em Julho de 2008, eu e o Luís Aguiar-Conraria escrevemos um paper onde fazíamos uma previsão dos resultados eleitorais das legislativas de 2009, que viriam a ocorrer a 27 de Setembro, mais de um ano depois. Essa previsão, apontava para que o PS tivesse 38,4%, e uma vantagem de 11,3 pontos sobre o PSD, ou seja, 27,1%. Num artigo posterior, escrito poucos meses depois mas publicado em Junho de 2009, afinávamos a nossa previsão para o PS: 37,1%. Em Setembro de 2009, o PS obtinha 36,7% dos votos e o PSD 29,1%.

Como já aqui explicámos, esta previsão deixou-nos ao mesmo tempo entusiasmados e perplexos. Entusiasmados pela enorme precisão. Perplexos porque o cenário macroeconómico no qual baseámos as nossas previsões – e que era o adiantado pelas organizações internacionais à época – não se veio a concretizar. Pelo contrário, o que sucedeu, a partir de finais de 2008, foi uma recessão internacional sem precedentes desde os anos 30. Assim, a nossa questão tornou-se outra: por que razão a previsão baseada em “previsões de crescimento económico” (e não nos dados reais da economia) esteve tão próxima dos resultados finais? Pode ter sido mero acaso. Mas pode ser que isto nos diga algo sobre como a realidade económica é percebida pelos eleitores (abrindo parêntesis, é curioso verificar, no recente inquérito dos Transatlantic Trends,  como os portugueses foram, de todos os países inquiridos, aqueles onde a percepção de consequências concretas da crise era mais baixa em 2009 e onde mais subiu de 2009 para 2010). Vamos trabalhar nisto.

Entretanto, obedecendo a um poderoso impulso suicidário, tivemos entretanto outra ideia: e qual uma previsão dos resultados das presidenciais? Péssima ideia. Vamos a isso.

Péssima ideia porquê? Várias razões:

1. Na democracia portuguesa, tivemos 7 (sete) eleições presidenciais. Se quisermos prever o futuro na base do passado, podemos usar não mais de 7 (sete) observações. É muito, muito pouco.

2. A maior parte dos modelos deste género procura prever a percentagem de votos do partido ou partidos no governo, ou seja, o desempenho do incumbent (há tradução?), no pressuposto de que a função de voto do governo é explicada por aspectos do seu desempenho (popularidade, crescimento económico, etc.). Mas o que fazer ao conceito de incumbent no caso do presidente?
2.1 Primeiro, o Presidente não governa (há certamente quem gostaria, mas lamentamos informar que não).
2.2 Segundo, quem é o incumbent em 1976? Não há. E em 1980: Eanes, claro. E em 1986, que votação de que incumbent estamos a prever? Bem, tendo em conta que Eanes foi apoiado pelo PS e pelo PCP, talvez nos arrisquemos a colocar a soma dos votos em Soares, Zenha e Pintassilgo no lado esquerdo da equação. E em 1991: a votação em Soares? Mas Soares foi apoiado pelo PS e pelo PSD. E por aí fora: por outras palavras, como não há uma identidade um a um entre partidos e candidatos, e como os candidatos representam coligações diferentes de eleição para eleição, o conceito de incumbent ainda faz menos sentido.

Como lidar, então, com o problema? O que podemos tentar prever? Nos próximos dias, explicamos o quê, como e o que daí resulta.

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