Pedro Magalhães

A “austeridade” nas eleições de 2015

A imprensa, especialmente a internacional, começou logo por comentar o resultado das eleições portuguesas pela lente da “austeridade”. “Portugal government re-elected despite painful austerity”. “Portugal’s austerity government wins“. E há até quem tenha escrito que a austeridade tinha sido eleitoralmente vantajosa: “Austerity campaign pays off as Portugal’s centre-right edges into new term“. Depois, quando se começou a perceber que um governo PSD/CDS não duraria, a interpretação balançou para o outro lado: afinal, “Portugal rejects austerity measures and ousts government“. Austerity this, austerity that, a austeridade explica tudo, primeiro “vitórias”, depois “derrotas”.

Quem lesse estes títulos, imaginaria um eleitorado dividido em torno da “austeridade”, os partidos da oposição recebendo os votos daqueles que se lhe opõem (pressuposição: muitos), os partidos de governo recebendo os votos daqueles que a defendem (pressuposição: menos mas alguns). Mas as coisas não se passaram exactamente assim. Desde logo, em Portugal, não há uma divisão entre eleitores que defendem “mais austeridade” e aqueles que querem “menos austeridade”. O nosso inquérito pós-eleitoral tinha a seguinte pergunta:

Pretendia agora saber se gostaria que o Estado fizesse mais ou menos gastos em várias áreas. Lembre-se que se disser “mais” isso pode implicar um aumento de impostos, e se disser “menos” isso pode implicar uma redução nos serviços públicos.”

As áreas em causa eram “saúde”, “educação”, “apoio aos desempregados”, “defesa”, “pensões de reforma”, “apoio às empresas e indústria”, “policiamento e segurança” e “benefícios sociais”. As opções de resposta eram “muito mais”, “mais”, “o mesmo”, “muito menos” e “menos.

O gráfico abaixo mostra um exemplo, a distribuição das respostas no que toca à saúde:

Saúde

A grande maioria dos portugueses defende que se gaste “mais” ou “muito mais” na saúde, mesmo que isso implique um aumento de impostos. E o mesmo sucede, de resto, em todas as áreas sociais. Há uma minoria de pessoas que defendem que se gaste “o mesmo”, mas o número dos que se atrevem a responder “menos” conta-se pelos dedos:

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Não devemos ficar demasiado surpreendidos. A distribuição de rendimento em Portugal é a que é — “a considerable wealthy elite and a mass of people with either an average or a low income“, segundo a OCDE — e as atitudes em relação ao papel redistributivo do Estado são influenciadas por isso. E o discurso dos partidos políticos, previsivelmente, não se pode alhear a esta realidade. O PS de Seguro era contra a austeridade, o de Costa quis virar a página da austeridade, Catarina Martins defendeu que a austeridade era um roubo e Jerónimo de Sousa que a austeridade era para encher os bolsos à finança. Mas Passos Coelho também veio explicar que um seu governo não iria aplicar medidas de austeridade e que de resto nunca quis a austeridade (aliás, já em Março de 2011 Passos Coelho era contra a austeridade), enquanto Paulo Portas é “contra a divisão entre os que são pela austeridade e os que são contra a austeridade”.

Com esta distribuição de atitudes e com este discurso político, seria difícil esperar que estas preferências manifestas sobre os gastos do Estado se reflectissem no comportamento de voto. E assim foi. No gráfico abaixo, vemos como o votante médio de cada partido em 2015 (assim como o abstencionista médio) se posiciona nesta escala de 1 a 5, entre “gastar muito mais” e “gastar muito menos”, no que toca à saúde (com os intervalos de confiança a 95%):

saúde partidos

Sim, o eleitor médio da PaF esteve ligeiramente à direita dos restantes, mas muito ligeiramente. Entre os outros todos, nem há diferenças estatisticamente significativas. E a história é igual para todas as áreas: os eleitorados dos diferentes partidos (e os não-votantes) mal se distinguem entre si do ponto de vista da suas preferências em relação aos gastos do Estado nas áreas sociais:

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Ainda me passou pela cabeça ver se haveria diferenças entre os eleitores do PSD e do CDS em 2011 que votaram PaF em 2015 e aqueles que desertaram os partidos do governo, mas nem isso acontece: quem ficou na PaF e quem abandonou a PaF não o fez por achar que o Estado devia gastar mais ou menos nesta ou naquela área.

Fim da história? Não exactamente. O que é certo é que os partidos que estiveram no governo e que aplicaram políticas de austeridade durante pelo menos parte do mandato perderam votos (mais de 700 mil, quase 12 pontos percentuais), e os partidos da oposição ganharam votos. Isso acontece quase sempre em qualquer eleição: governar tem quase sempre custos. Mas onde é que os partidos de governo perderam mais votos? O gráfico seguinte compara a percentagem de pessoas que votaram PSD ou CDS em 2011 (recorro aqui ao nosso estudo pós-eleitoral de 2011) com a mesma percentagem dos que votaram na PaF em 2015, mas dentro de determinados segmentos do eleitorado. O gráfico mostra os ganhos/perdas (quase sempre as segundas) de 2011 para 2015 para os partidos da PaF em cada um desses segmentos:

Perdas PaF

As perdas da PaF não estiveram distribuídas aleatoriamente. Entre aqueles que diziam ter um “baixo” ou “muito baixo” nível de vida em 2011, 49% votaram no PSD ou no CDS. Em 2015, entre os que se classificam dessa forma, foram 19% a votar na PaF, uma perda de 30 pontos. Perdas elevadas também entre os desempregados, entre os que perderam o emprego desde 2011 (ou que tiveram familiares a quem isso sucedeu), entre os pensionistas, entre os que se descrevem como pertencendo a uma classe “baixa” e entre os que pertencem a agregados familiares com rendimento líquido inferior a 750 euros por mês. Perdas mais baixas ou nulas entre os que pertecem a agregados familiares com os mais altos rendimentos, entre os que trabalham no sector privado e entre os que têm acções, obrigações ou fundos. Curiosamente, as perdas junto dos que trabalham no sector público ou dos que são donos de um negócio são semelhantes, relevantes mas não das mais altas ou das mais baixas, o que sugere que são categorias bastante heterogéneas que terão de ter uma análise mais fina.

Passos Coelho descreveu há uns anos o PSD como um partido “reformista, personalista e interclassista“. “Interclassista” é, de facto, um termo muito usado acerca do PSD, desde os tempos do próprio Francisco Sá Carneiro. E não há dúvida que os principais marcadores de classe e de situação sócio-económica dos eleitores nunca ajudaram muito a explicar o comportamento de voto, nem no PS nem no PSD. Contudo, as perdas dos partidos da PaF nestas eleições estão bem localizadas socialmente. Parte dessas perdas deve-se certamente à insatisfação que qualquer pessoa que tenha problemas económicos sente em relação a governos que não resolveram esses problemas (os que estavam desempregados em 2011 não foram a correr votar no PS, por exemplo). Contudo, as perdas da Paf junto dos desempregados, dos inactivos e especialmente dos eleitores com mais baixos níveis de vida são evidentes e, a par das reduzidas perdas no outro extremo da distribuição, falam-nos de uma direita que ficou com um eleitorado mais socialmente rarefeito.

Estas análises são descritivas, meros cruzamentos de variáveis, e carecem de confirmação com análises mais sofisticadas. Mas elas sugerem que, a ter havido um efeito da “austeridade”, terá sido por aqui: não tanto em termos das políticas que os eleitores acham que devem ser adoptadas em abstracto (o Estado “gastar mais” ou “gastar menos”), mas sim a nível da percepção de como governou e, muito especialmente, para quem governou o anterior governo. Os que aspiram a um PSD interclassista têm razões para alguma preocupação.