Pedro Magalhães

POPSTAR is born

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POPSTAR significa Public Opinion and Sentiment Tracking, Analysis, and Research. É um projecto de investigação do Instituto de Ciências Sociais da ULisboa, do INESC-ID, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e do Núcleo de Investigação em Políticas Económicas da Universidade do Minho, financiado pela Fundação para Ciência e Tecnologia. O objectivo do POPSTAR é desenvolver ferramentas de recolha, medição e agregação de opiniões políticas e económicas veiculadas no Twitter, na blogosfera e nas notícias, assim como o de comparar os dados assim gerados com indicadores mais convencionais de opinião pública, nomeadamente os obtidos através de inquéritos por questionário (sondagens). O POPSTAR já tem uma casa: www.popstar.pt.

Aqui podem encontrar:

1. Tendências na opinião pública tal como captadas pelas sondagens, seja em termos de intenções de voto nos principais partidos seja de avaliação da actuação dos principais líderes políticos. A metodologia utilizada já foi abordada aqui neste blogue por mim e pelo Luís Aguiar-Conraria. Os dados serão actualizados sempre que saia uma nova sondagem e os todos os seus resultados sejam conhecidos, na imprensa ou no depósito na ERC.

2. Tendências no Buzz sobre os principais líderes político-partidários, ou seja, na frequência (absoluta e relativa) com que são mencionados no Twitter, nas notícias online ou na blogosfera. Os dados vêm de uma plataforma denominada POPmine, desenvolvida pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e os Labs Sapo UP. Com estes dados, podemos acompanhar dia a dia a “notoriedade” dos líderes políticos, determinar que dias foram “picos” de cobertura para cada um deles e perceber em que medida vão sendo mais ou menos mencionados em comparação uns com os outros e em três suportes distintos. Esta informação é actualizada diariamente.

3. Tendências no Sentimento em relação aos principais líderes político-partidários no Twitter. Analisando a polaridade de cada tweet, ou seja, determinando se este expressa um sentimento positivo, negativo ou neutro em relação a cada um dos alvos, é possível construir indicadores globais que indicam tendências. Nesta fase, utilizamos dois indicadores possíveis: um rácio (transformado) de menções positivas sobre negativas e o cálculo do share de menções negativas. Para determinar a polaridade de cada tweet, utiliza-se o Opinionizer, uma ferramenta de análise de sentimento em mensagens do Twitter, fruto de trabalho de Investigação e Desenvolvimento do grupo DMIR do INESC- ID Lisboa. Esta informação é actualizada diariamente.

É natural que surjam muitas questões. Procuramos antecipar algumas aqui neste Q&A e estamos ao dispor de todos para tentar esclarecer as restantes. Este é apenas o primeiro protótipo deste sistema, e muitas evoluções estão previstas: determinar a polaridade de outro tipo de textos para além de tweets; alargar o nosso objecto de estudo da política para a economia; fornecer ferramentas adicionais de análise aos utilizadores; e, mais importante, utilizar e disseminar os dados daqui decorrentes para a investigação.

Como muitos saberão, há quem deposite grandes esperanças na capacidade destas ferramentas para complementarem ou mesmos substituirem indicadores mais convencionais de opinião pública. Um artigo de opinião recente do Washington Post tinha como título “How Twitter can help predict an election“, baseado neste paper. É natural este entusiasmo, ditado quer pela novidade do meio quer pela crescente frustração com os problemas metodológicos dos inquéritos por questionário (baixas taxas de resposta, “cell-only” voters, etc.). É também natural (e parcialmente justificado) o cepticismo em relação a este tipo de alegações bombásticas, e muitas as falácias em que se pode cair ao fazê-las.

A nossa posição aqui, contudo, tende a ser um pouco diferente. Primeiro, antes de qualquer alegação de capacidades preditivas, os media sociais são interessantes em si mesmos como veículos e fontes de informação política. Que informação é veiculada neles? Conseguimos construir instrumentos de medida válidos e fiáveis e ferramentas que sejam capazes de lidar com a quantidade enorme de dados que se podem recolher nestes suportes?  “Move away from trying to predict votes and move toward trying to understand tweets” é um bom conselho, da mesma maneira que os estudos sobre a comunicação social não precisam de alegar que o conteúdo dos media são “preditores” de eleições para serem relevantes.

Segundo, a mera comparação dos conteúdos dos media sociais e dos media convencionais é também interessante em si mesma. Que relações entre esses conteúdos? Quem influencia (ou pelo menos antecipa) quem, quando e como? Serão os media sociais capazes de compensar a assimetria de atenção e cobertura com que que diferentes ideias, pessoas, e partidos são tratados na comunicação social “convencional”? Ou reproduzem eles as mesmas assimetrias?

Finalmente, é perfeitamente possível imaginar relações entre os conteúdos dos media sociais e opiniões e comportamentos políticos de diferentes populações que não passam pelo relativo simplismo de “prever” eleições. E se, por exemplo, as opiniões veiculados na twittosfera ou na blogosfera forem “indicadores avançados” de mudanças nas atitudes políticas ou nas opiniões sobre a economia, fenómeno fácil de conceber tendo em conta o perfil sociográfico e político daqueles que usam essas plataformas para comunicar? Há todo um mundo a explorar para além da “previsão de eleições com o Twitter”. Essa exploração é o objectivo do POPSTAR. Ao longo dos próximos meses, o blogue do POPSTAR vai ser o local onde deixaremos as nossas ideias e análises.

Termino com uma nota pessoal para dizer que, apesar de eu já ter uma boa noção do tipo de coisas de que o meu amigo Luís Aguiar-Conraria é capaz quando lhe põem uma série temporal à frente, estou absolutamente siderado com o trabalho que toda a equipa – incluindo vários investigadores do INESC-ID, da Faculdade de Engenharia do Porto e do ICS-UL – foi capaz de fazer para algo que ainda não passa de um primeiro protótipo. Os seus nomes: Carlos Soares, Eduarda Mendes Rodrigues, Mário J. Silva, Nina Wiesehomeier, Paula Carvalho, Silvio Amir, Pedro Saleiro, Miguel Maria Pereira e João Filgueiras, sem esquecer o trabalho do designer Manuel Távora.