Pedro Magalhães

PORDATA

Sou algo suspeito, porque faço parte do Conselho Científico da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Mas dificilmente se poderia imaginar uma primeira iniciativa da FFMS mais auspiciosa do que a PORDATA.

Primeiro, porque a PORDATA congrega num único suporte um conjunto de dados estatísticos sobre a sociedade e a economia portuguesas que se encontravam dispersos por muitas fontes oficiais, tornando essa informação mais acessível e transparente. Segundo, porque a própria construção da PORDATA levou, no contacto com essas fontes, à detecção de lacunas e problemas nessa mesma informação. Neste sentido, a PORDATA já contribuiu não apenas para a disseminação de informação mas também para a melhoria da sua qualidade. Terceiro, porque uma das coisas em que se teve maior cuidado na construção desta base foi na análise das mudanças de critérios na medição das variáveis, permitindo a quem analisa os dados perceber em que casos as evoluções ao longo do tempo reflectem alterações reais ou, pelo contrário, simples mudanças de critérios. Sabendo como pensam os governos e como este tipo de dados se presta à manipulação, isto não é coisa de somenos. E quarto, porque estes dados são disponibilizados pela PORDATA de uma maneira mais amigável, manejável e atraente do que em qualquer fonte oficial portuguesa que conheça. É evidente que o seu uso ainda exige um conjunto de competências mínimas. Mas o facto de o suporte de tratamento de informação ter sido criado de raiz permite que seja mais friendly que os sites e suportes das fontes oficiais, facilitando o seu uso não apenas por especialistas mas também por jornalistas, estudantes e público interessado em geral.

E há um último ponto, para mim não menos relevante. Por várias razões que não vale a pena tratar aqui, acho que o advento da blogosfera e das redes sociais como fontes de informação e locais de debate tem causado duas tendências contraditórias. A primeira, muito positiva, é de fornecer um constante recurso de factchecking no debate público. Políticos e jornalistas sabem que, se não fizerem cuidadosamente o seu trabalho, há sempre alguém algures que sabe algo que os primeiros julgavam que ninguém sabia e os segundos não se deram ao trabalho de apurar e estudar devidamente. Mas a segunda, mais perturbante, tem sido a de mergulhar o debate público num mar de opiniões. Hoje, é fácil encontrar todo o tipo de opiniões sobre todos os temas, expressas não apenas pelos cidadãos em geral e pelos políticos, mas também por aqueles – especialistas, responsáveis da administração pública e jornalistas – dos quais esperaríamos mais juízos de facto e menos juízos de valor. Em suma, há uma tendência crescente para tratar os factos como se fossem meras opiniões e as meras opiniões como factos. Assim, acho muito positivo que a primeira iniciativa pública da FFMS não seja a de nos atirar mais opiniões para cima, mas sim a de nos facultar, simplesmente, informação.

Muitos parabéns a Maria João Valente Rosa, responsável pelo projecto.

8 Comments

  1. Vitor Silva says:

    excelente este projecto.

    o investimento que fizeram na sistematização da informação deve ter sido enorme e o valor que acrescenta às informações dispersas no ine, banco de portugal, etc é inegável.

    só falta uma coisa.
    uma api. algo que permita aceder de forma sistemática e programável à informação disponibilizada de forma a integrá-la com outros conjuntos de dados (datasets).

    isto é fundamental para conseguirmos explorar informação de outras formas (por exemplo geograficamente em cima de mapas) e para que este repositório de dados não se torne em mais uma fonte de informação (como o INE, BdP, …)

    como estas coisas todas custam dinheiro eu diria mesmo que era preferível investir primeiro na API e só depois nas ferramentas de visualização que criaram.

    outras notas mais detalhadas sobre estes temas em http://blog.osmeusapontamentos.com/?p=889 e http://blog.osmeusapontamentos.com/?p=1485

  2. Vou fazer chegar aos responsáveis.

  3. Fliscorno says:

    Um site muito útil, sem dúvida. Quanto ao seu comentário, apenas um reparo: creio que é benevolente ao afirmar que são publicados dados dispersos, pois encontrei aqui informações que nunca encontrara nos sítios oficiais.

  4. guictx says:

    Subscrevo o que diz o Vitor. Coligir estes dados todos sem disponibilizar uma API é uma oportunidade perdida. Sobretudo no que às possibilidades de fact-checking diz respeito.

  5. Vitor Silva says:

    claro.
    não quero ser injusto.
    estive a ver a lista de fontes (http://www.pordata.pt/azap_runtime/?n=22) e é enormíssima e nem quero imaginar o trabalho que de certeza houve não só para sistematizar a informação, como referi anteriormente, mas, e se calhar mais importante, o esforço que foi necessário fazer para conseguir simplesmente essa informação.
    só queria alertar que nos dias de hoje já podemos ir um passo mais a frente nesta disponibilização de informação.
    quem estiver interessado pode ir seguindo no twitter as hashtags #opendata #opengov #linkeddata
    há muita coisa a fazer-se no mundo nesta área mas claro que sem os dados não vale a pena pensar em mais nada

  6. guictx: por acaso já tinha visto o tweet das 10 e tal e vou mesmo fazer chegar isto à MJVR.

  7. pvilela says:

    Este é um trabalho excelente de facilitar o acesso à informação. Parabéns.
    No capítulo de sugestões vai uma tecnológica: as novas capacidades na norma HTML5 permitem substituir a tecnologia Flash que tem problemas de acessibilidade e é proprietária.
    A pensar para um futuro update.

  8. O projecto parece-me excelente mas os contadores da página inicial pareceram-me estranhos: o que se destaca claramente pela variação rápida são as despesas públicas com saúde e educação. Nenhuma outra despesa pública (com as PPP, por exemplo) e nestas áreas mostra-se a despesa global. Bastava dividir por 10000000 de porugueses e o aspecto seria outro.

    Qual o sentido de fazer aparecer exactamente estes contadores desta maneira?

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