Pedro Magalhães

Margens de Erro

“As sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal”

Posted January 14th, 2016 at 2:06 pm4 Comments

Mais um caso de alguém que não se sabe se acredita ou se apenas diz que acredita. Francisco Louçã afirma que "as sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal", e comprova (ou ilustra) dizendo que "a sondagem que é publicada mais regularmente afirmava, uma semana antes das eleições legislativas, que o PS estava à frente e que o Bloco ia baixar". Mas isto não cola. Por um lado, não há qualquer sinal de que "as sondagens se enganem cada vez mais em Portugal". A haver sinais, são os opostos: o número de anos passados desde 1991 até 2009 têm um coeficiente negativo na sua relação com o desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições:

Screen Shot 2016-01-14 at 13.47.18 Por outro lado, mesmo que se presuma que Louçã se refere a uma tendência recente, também não se consegue discernir uma "tendência" nas legislativas ou nas presidenciais. E comprovar essa tendência recorrendo a uma sondagem de 21 de Setembro (a duas e não uma semana das eleições), a última sondagem publicada que colocou o PS à frente da PaF, e da única empresa que o fez desde pelo menos Agosto, também não me parece certo. Em suma, mais "wishful thinking".

Já as observações sobre as dificuldades especiais nas presidenciais talvez se apliquem (mas no argumento usado apenas nas eleições onde o presidente é candidato), mas isso é outra questão.

by Pedro Magalhães

Hinos de campanha

Posted January 14th, 2016 at 12:42 pm4 Comments

Os hinos partidários e de campanha são uma tradição que se está a perder mas merece todo o nosso carinho. Infelizmente, o seu impacto no comportamento eleitoral está por explorar: mais uma lacuna na nossa investigação. Mas não faltam bons exemplos passados. Vejam este medley, por exemplo, e o irreprimível entusiasmo que se detecta na primeira fila:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=LjVYJZXz6LQ[/embed] Ou o hino do CDS, salvo erro por Dina:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=M1q7ppbBnRg[/embed] O clássico dos clássicos, A Carvalhesa, imediatamente reconhecível (sem letra porque, já se sabe: inflexibilidade estratégica mas flexibilidade táctica):

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=g-KdKuxZDL8[/embed] "Está na hora", no fundo o que seria se o saudoso Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta decidisse fazer uma mistura entre Ska e Kurt Weil e não soubesse cantar nem tocar instrumentos musicais:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=U4JbHEqBIN8[/embed] Ou ainda "É do Costa que o nosso povo gosta (o povo merece, vota PS)", que se comenta a si próprio:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=zFKcDqwfzfA[/embed] Noto por isso com preocupação que há poucos hinos nestas presidenciais. Contudo, há pelo menos três candidatos que não desiludem:

Henrique Neto, com "Presidente Independente":

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=HscqOIxAXcU[/embed] Paulo Morais, com o breve e directo "Vota Morais":

[embed]https://youtu.be/qZvs2aJZJhg?t=2m47s[/embed] Sampaio da Nóvoa, nem precisa de título:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=gXtixER1-Bc[/embed] Surpreende-me que Vitorino Silva não tenha hino de campanha propriamente dito, tendo em conta este precedente:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=1HC9dxcqF0A[/embed] Sei que é preciso poupar, o país não está para devaneios, queremos campanhas sérias e modestas. Mas toda a gente gosta de música e é preciso mobilizar o povo. Depois queixem-se da abstenção.

by Pedro Magalhães

“Marcelo acredita que eleitores já sabem se vão votar e em quem”.

Posted January 13th, 2016 at 3:40 pm4 Comments

Aqui. Não sei se acredita ou se diz acreditar, mas vejamos o que se sabe:

1. Em eleições legislativas, há uma parcela significativa de pessoas que decidem se vão votar e em quem relativamente tarde. Ou pelo menos é o que elas próprias nos dizem, nos inquéritos pós-eleitorais, que terá sucedido: 9% em 2002, 17% em 2005, 10% em 2009 e 9% em 2011 decidiram na última semana. E isto é em relação ao total de eleitores. Em relação ao total de pessoas que realmente votaram, em 2011, foram 20% os que dizem ter decidido a sua escolha na última semana (e mais ainda em 2005). Logo, por aquilo que as pessoas nos dizem, há uma parcela não irrelevante delas a decidirem tarde. Isto não quer dizer que estas decisões sejam suficientes para mudar o curso de uma eleição: se estas decisões tardias tiverem uma distribuição exactamente igual à das decisões precoces, nada muda. Mas isso não acontece exactamente assim, pelo que sabemos.

2. Outra maneira de olhar para o assunto é através das sondagens. Estamos a 11 dias da eleição, certo? Basta ler o artigo do Miguel Maria Pereira para ver a quantidade de coisas que pode acontecer a 11 dias de uma eleição. A 11 dias da reeleição de Cavaco em 2011, ainda havia sondagens que lhe davam acima dos 60%. A 11 dias da sua eleição em 2006, o seu score médio nas sondagens era de 58%. A 11 dias da reeleição de Sampaio, todas as sondagens lhe davam mais de 60%. Etc.

Há muito caminho para andar, e os precedentes não são favoráveis ao candidato "favorito", pelo que se percebe o "wishful thinking" de Marcelo.

by Pedro Magalhães

Sondagens presidenciais

Posted January 11th, 2016 at 12:56 pm4 Comments

Nova sondagem da Aximage, numa eleição onde tem havido muito poucas. As que conheço com o menu final de candidatos. A bold, resultados após redistribuição de indecisos.

presidenciais jan 16 Olhando apenas para as sondagens da Aximage, tendência de descida de Marcelo, descida de Belém, recuperação de Nóvoa. Olhando para todas, muita dispersão nos resultados de Marcelo. Esta semana sei que teremos Eurosondagem, veremos que mais aparece...

P.S.- Corrigido com a ajuda do @FHenriques: faltava a última da Eurosondagem.

by Pedro Magalhães

Portuguese presidential election polls

Posted December 11th, 2015 at 8:06 am4 Comments

Very few so far, at least with the definitive roster of candidates:

presidenciais 11 dez

Marcelo Rebelo de Sousa, probably the best known politician in the country who does not currently hold any major office (he has been a political pundit on television for 15 years, after having presided over the PSD, which he joined very early on, in 1974), has a huge advantage over everybody else, with most recent polls giving him well above the 50% majority he needs to avoid a second round. He's endorsed by the parties on the right.

More data from the Catholic University poll out today:

ng5388416 Marcelo (the colloquial first name treatment is common in his case, although journalists call him "Professor") gets almost every single voter of the parties on the right, but he also makes serious inroads in the electorates of the major parties on the left. For an hypothetical second round, any of the major opponents is equally pulverized.

I wouldn't be surprised if these polls end up representing the high mark of Marcelo's bid for the presidency. Things are bound to become more complicated as the campaign progresses. Partisans and partisanship will be activated, and Marcelo has to debate the other candidates, which may lead to him being asked actual questions (so far, journalists have treated him with the reverence due to a senior colleague). But he remains, by very very far, the favorite.

by Pedro Magalhães

Sondagens presidenciais, actualização

Posted December 10th, 2015 at 1:24 pm4 Comments

Do que consigo retirar das notícias — por vezes a informação não é absolutamente clara, e os depósitos na ERC estão muito atrasados — eis as três sondagens divulgadas até ao momento com o menu estabilizado de candidatos: sondagens presidenciais Os resultados a negrito são após redistribuição de indecisos, seja a apresentada pela empresa seja a feita por mim (presumindo que se redistribuem proporcionalmente pelas opções válidas). Permanece um enorme contraste entre as duas empresas, e nada muda de significativo nas sondagens da Aximage.

O estudo da Aximage tem mais informação potencialmente interessante, nomeadamente no cruzamento entre intenção de voto em legislativas e a intenção de voto nas presidenciais (o texto do artigo fala em "eleitorado que votou no BE nas legislativas", mas não pode ser, porque aparecem distribuições para o CDS e para "indecisos", e quem eu saiba não há indecisos em relação a comportamentos passados). Infelizmente, sem saber a dimensão das sub-amostras por partido, não é fácil saber o grau de incerteza dessas distribuições, que deve ser muito alto nos partidos mais pequenos. Para além disso, não se percebe em relação a quê são calculadas estas percentagens. A coluna do PSD soma 93,3%, a do CDS soma 49,7%, a do BE 72,4%, sinceramente não decifro isto, desculpem, talvez alguém que leia este post possa ajudar. Sem perceber o que é isto, não comento.

by Pedro Magalhães

Sondagens para as presidenciais

Posted November 23rd, 2015 at 11:04 am4 Comments

Que me tenha apercebido, com o menu de candidatos mais ou menos definitivo, temos apenas duas (2) sondagens. Uma foi realizada pela Aximage, com o trabalho de campo a terminar no dia 4 de Novembro e uma amostra de 603 inquiridos. Outra foi realizada pela Eurosondagem, com o trabalho de campo a terminar dia 18 de Novembro e uma amostra de 1510. Há muitas sondagens anteriores, todas úteis à sua maneira, mas com candidatos que acabaram por não o ser (Rui Rio, Jerónimo de Sousa) ou faltando-lhes outros (Edgar Silva, Marisa Matias).

O que dizem estas duas sondagens?

1. Que não há indicações claras sobre se Marcelo tem mais de 50% das intenções de voto válidas: 48% para a Eurosondagem e 64% (depois de redistribuídos indecisos e votos em branco proporcionalmente pelos votos válidos) para a Aximage.

2. Que não se sabe quem tem mais intenções de voto à esquerda. Na Aximage, Nóvoa tem 17% contra 15% de Belém. Na Eurosondagem, Belém tem 19% contra 17% de Nóvoa.

3. Que não se sabe o peso dos restantes candidatos: 4% para a Aximage, 16% para a Eurosondagem.

Em suma, grande incerteza sobre vitória à 1ª volta, grande incerteza sobre quem iria a uma 2ª volta, grande incerteza sobre o peso dos restantes candidatos.

Como compara isto com o passado? 2006 talvez seja o melhor ponto de comparação, dado serem eleições onde, tal como nestas, não concorria o presidente em exercício. Em Novembro de 2005, foram divulgadas cinco sondagens, da Eurosondagem, da Marktest, da Católica, da Aximage e da Intercampus. Cavaco Silva aparecia com valores entre os 53% e os 57% nesse mês, mas no resto da campanha persistiram sondagens com resultados num intervalo bastante amplo, entre os 63% da Gemeo/IPAM (logo no início de Dezembro) e os 52% da Eurosondagem em Dezembro e da Católica nas sondagens finais de Janeiro, sendo que a vitória de Cavaco à primeira volta foi, como se recordarão, ainda mais apertada (50,5% dos votos; com menos 29758 votos teria havido 2ª volta).

Como também se recordarão, a questão Alegre vs. Soares só se começou a resolver nas sondagens da última semana, e Jerónimo de Sousa teve um resultado melhor do que qualquer sondagem lhe concedeu. Em suma, há muito caminho para andar até ao dia 24 de Janeiro.

by Pedro Magalhães

Estabilidade governativa

Posted October 22nd, 2015 at 5:02 pm4 Comments

Têm sido apresentado muitos argumentos sobre a conveniência desta ou daquela solução governativa. São de três tipos. O primeiro toca questões de "legitimidade". É legítimo que o governo seja liderado por um partido que tem menos deputados que outro no parlamento? É legítimo um governo de direita quando a maioria no parlamento é de esquerda? O segundo toca questões de preferências sobre políticas e suas consequências. Preferimos que o país seja governado assim ou assado, com estas ou aquelas presumíveis consequências? O terceiro toca questões de "estabilidade". Que solução garante mais estabilidade governativa?

Queria falar apenas sobre este terceiro ponto. Há uma bibliografia enorme e bastante sofisticada sobre isto: que características de governos e de sistemas políticos estão mais associadas a governos estáveis, e quais fazem com que um governo tenha maiores riscos de cair antecipadamente? Muita dessa bibliografia não se nos aplica: é sobre a maneira como os primeiros ministros marcam eleições estrategicamente, mas por aqui os PM's não têm esse poder. Quanto a outros factores, especialmente desde este paper de King e colegas (1990), julga-se saber que:

1. Governos maioritários duram mais tempo que governos minoritários.

2. Quanto maior o peso de partidos extremistas num sistema partidário, menos tempo duram os governos.

3. Quanto mais fragmentado o parlamento, menos tempo duram os governos.

4. Se não tiverem de ser sujeitos a investidura — à necessidade de aprovação do programa por maioria absoluta — os governos duram mais tempo (presumivelmente porque há menos que caem nesse momento, o que não quer dizer que os que sobrevivem sob um sistema de investidura não sejam até mais duráveis).

A referência mais importante que se segue é provavelmente Diermeier e Stevenson (1999), que introduzem, entre outras coisas, uma distinção entre dois tipos de risco a que qualquer governo está sujeito: o de cair devido a uma dissolução do parlamento e convocação de eleições e o de ser substituído sem eleições. A mensagem principal é que os processos que proporcionam um tipo de queda de um governo não são exactamente os mesmos que proporcionam o outro e, substantivamente, para além de se confirmar o efeito importante que o carácter maioritário ou minoritário dos governos tem nas suas chances de sobrevivência, Diermeier e Stevenson detectam que a diversidade interna das coligações do ponto de vista ideológico é um factor que diminui o seu tempo de vida expectável, favorecendo, neste caso, a sua queda através de sua substituição sem eleições.

Mais recentemente, há uma referência que beneficia muito do caminho trilhado pelos textos anteriores, Schleiter e Morgan-Jones (2009), que mostram que:

1. O risco de um governo minoritário cair, seja por dissolução seja por substituição, é cerca de 2 vezes superior ao de um governo maioritário.

2. Governos monopartidários, em democracias mais antigas, e onde está presente o partido do eleitor mediano estão sujeitos a um menor risco de serem substituídos por outros sem eleições.

Outro trabalho, de Saalfeld (2009), sintetiza muitas das conclusões anteriores. Finalmente, este vosso criado e o Jorge Fernandes mostramos, num artigo acabadinho de sair, e entre outras coisas, que muitas destas conclusões se continuam a aplicar quando olhamos exclusivamente para regimes semi-presidenciais, que presidentes com poder de dissolução discricionário aumentam o risco de governos caírem por dissolução (daaah) e que presidentes com poder de demissão discricionário aumentam o risco de um governo ser substituído, sem eleições, por outro liderado por um partido diferente.

Assim, que lições úteis podemos retirar da literatura para a nossa situação concreta?

  1. Que apesar do facto de não termos investidura facilitar a formação e sobrevivência de um governo, governos minoritários estão sujeitos a um risco maior de terminarem antes do tempo que governos maioritários.
  2. Que governos onde não esteja presente o partido mediano estão sempre sujeitos a um risco maior de terminarem antes do tempo. Traduzindo, em Portugal, isto milita contra a estabilidade de um governo minoritário onde não esteja o PS. Miguel Galvão Teles, com a sabedoria de quem não precisa de estatísticas, chamava a atenção para o problema dos "governos minoritários descentrados", aqueles que enfrentam maiorias absolutas ou à sua direita ou à sua esquerda (este último o problema de um governo PSD/CDS nas actuais circunstâncias).
  3. Mas governos compostos por uma coligação onde estejam partidos muito distanciados ideologicamente estão também sujeitos a um maior risco de caírem antes de tempo. Em Portugal, o posicionamento esquerda-direita dos partidos tal como medido através dos seus programas partidários, retirado do Manifesto Projecto Database), mostra em 2011 uma crescente polarização ideológica no sistema, e há boas razões para crer que tenha aumentado. Mesmo que as coisas não tenham mudado muito, PSD e CDS estarão presumivelmente próximos um do outro, PS e PSD menos, CDS/PSD/PS aumenta ainda mais a distância entre os potenciais parceiros e PS/PCP/BE mais ainda.
Screen Shot 2015-10-22 at 12.17.17 Em suma, a situação eleitoral criada a 4 de Outubro é inimiga da estabilidade governativa em quase todas as soluções possíveis que consigo imaginar. Se tapamos um lado do corpo com a manta (governo coeso PSD/CDS) destapamos outro lado (minoritário e sem o partido pivotal). Se puxamos para tapar outra parte (um governo majoritário PS/BE/PCP) destapamos outra (três partidos ideologicamente distantes num mesmo governo). Se o tornamos menos diverso ideologicamente (PS sozinho) destapamos outra parte (minoritário, com parlamento mais fragmentado e polarizado do que no passado recente). Etc.

Reforço que nada disto tem a ver com a conveniência ou não da adopção destas ou daquelas políticas por parte deste ou aquele governo (isso são contas muito importantes mas de outro rosário) nem com questões de "legitimidade" (eu diria que a legitimidade resulta fundamentalmente do respeito escrupuloso pelos procedimentos, mas há quem tenha outras opiniões). Nem sequer pressuponho que a estabilidade seja o valor único ou sequer principal que deve contar. Mas se queremos falar de estabilidade, há investigação, com conclusões sólidas e, diria, bastante previsíveis e lógicas. Elas sugerem, por diferentes razões, que o caminho para uma qualquer solução de governo que possa emergir do processo actual em Portugal e que não comporte riscos conhecidos e grandes para a estabilidade governativa é apertadíssimo, para não dizer inexistente. C'est la vie.

by Pedro Magalhães

O que os eleitores “querem”.

Posted October 14th, 2015 at 11:24 am4 Comments

Por estes dias, toda a gente sabe o que os eleitores de cada partido queriam e preferiam quando votaram, o que significa o voto e que preferências transmitiu. Eu não tenho a certeza sobre 2015. Mas posso recuar a 2011, com os dados do estudo eleitoral português. Já passaram uns anos, as pessoas que votaram em cada partido em 2011 não são as mesmas que votaram desta vez, etc. Mas por mera curiosidade, como se distinguiram as preferências de cada eleitorado? Numa escala de 1 a 10, em que 1 significa uma coisa (normalmente mais associada a posições de esquerda) e 10 outra (normalmente associada a posições de direita), onde é que as pessoas que dizem ter votado em cada partido se posicionaram, em média?

Vejamos sobre o aborto:

Aborto Hum, curioso. Em média, apenas os que votaram PSD são os que se aproximam mais do ponto intermédio da escala, o BE é o mais "à esquerda", mas em geral próximos uns dos outros e ninguém em posições extremas.

E abandonar o Euro? Inevitável mais tarde ou mais cedo?

euro Olha, os que votaram BE em 2011 eram os que menos concordavam com a ideia. Mas todos muito próximos, também.

E vamos lá ver, quem quer mais estado ou menos estado na saúde e na educação? É evidente, não é?

educaçãosaude Pelos vistos, em geral, privado vade retro. E curioso, os que votaram BE até são menos desfavoráveis ao privado na educação.

E privatizações de empresas públicas?

empresas Todos tão próximos? E os eleitores do PS são os que mais se opõem? Olha que giro.

E se tivéssemos de escolher, o que mais queríamos: incentivar a iniciativa individual ou promover igualdade?

rendimento O CDS menos igualitarista, é certo, mas os outros relativamente alinhados.

E defender liberdades cívicas ou defender a lei e a ordem?

lei e ordem Alinhamento previsível. Mas diferenças tão pequenas...

Bem, se calhar são as perguntas que não prestam, pode ser isso. A outra hipótese é que a conversão entre as preferências dos eleitores em termos de valores e políticas públicas em Portugal seja péssima, seja porque os partidos são pouco claros nessa tomada de posição, seja porque os eleitores são pouco interessados e informados, ou talvez, talvez, porque os eleitores cada vez mais descontem todo o tipo de coisas que os partidos lhes tentem transmitir sobre estes assuntos e sejam movidos por outras considerações (desempenho, liderança, etc). Mas isto é só para dizer que, quanto vos disserem que os eleitores dos partidos queriam isto e aquilo, desconfiem. P.S.- Para detalhes sobre o estudo eleitoral português de 2011, ver aqui. Os maiores ou menores intervalos em torno das estimativas para cada partido reflectem, no fundamental, os diferentes tamanhos das sub-amostras de votantes em diferentes partidos. Os resultados decorrem de pós-estratificação amostral, para corrigir distorções na composição da amostra em termos socio-demográficos e eleitorais.

by Pedro Magalhães

As sondagens pré-eleitorais

Posted October 5th, 2015 at 10:02 am4 Comments

1. Quadro com médias aritméticas e intervalos, últimas sondagens de cada empresa, no final da penúltima e da última semanas antes das eleições. sondagens final 2. Era bom que nos convencêssemos do seguinte: o default em eleições legislativas é que, em Portugal, e em geral, as intenções de voto tal como captadas nas sondagens, pelo menos a duas semanas das eleições, já traçam relativamente bem o quadro geral daqueles que acabam por ser os comportamentos dos eleitores, e muito mais nas últimas sondagens antes da eleição. A maior parte dos desvios parece decorrer do prolongamento de tendências já detectadas. Não tinha de ser assim, mas é. Telefones fixos? Baixas taxas de resposta? "Direita tímida"? Late swings? Abstenção diferencial? Amostras pequenas? Tudo isso é potencialmente importante e importa considerar, mas a verdade é que os resultados resistem. Contudo, importa ter em mente que isto pode ser tanto fruto do bom trabalho das sondagens como de características do eleitorado português e das eleições aqui que facilitam a vida a quem as faz. Provavelmente de ambos. E não é assim em todos os tipos de eleições. Logo, convém não cair em excessos de auto-congratulação.

3. Isto também não impede outro género de considerações mais críticas. Houve muita confusão este ano sobre as sondagens, como sempre, de resto. Comentários e notícias que não distinguem os conceitos de "universo" dos conceitos de "amostra", que não percebem que tracking polls são sondagens como outras quaisquer, que sobrestimam os problemas resultados da utilização de telefones fixos sem perceber que enviesamentos sociológicos não têm de ser enviesamentos políticos, que valorizam excessivamente mudanças e diferenças que não têm significado estatístico, que se concentram sobre a dimensão das amostras sem perceber que o tamanho não é tudo, etc, etc, etc. Mas talvez com um bocado de wishful-thinking, tenho a sensação que, pouco a pouco, a leitura destas coisas vai, muito lentamente, ficando mais ponderada.

4. E também não impede que se critique a pobreza das sondagens do ponto de vista do seu conteúdo substantivo. Acho que era possível fazer melhor e mais interessante, sem grande acréscimo de custos. Para isso, será preciso que os clientes saiam da mentalidade de obsessão exclusiva com a corrida de cavalos. Não vai ser fácil.

5. Vai haver comentários sobre os efeitos das sondagens. Há duas teorias: uma é que as sondagens mediram correctamente as intenções de voto e que os resultados o reflectem; outra é que as mediram incorrectamente e que foram os resultados que as sondagens deram que "manufacturaram" os resultados. A pergunta que se segue é: que evidência empírica existe para cada teoria? A resposta é que, para a segunda, essa evidência é, lamento, nula. Dito isto, não quer dizer que não tenham existido efeitos. Uma coisa quase certa é que, até meados de Setembro, a maioria dos portugueses pensava que o PS ia ganhar, e que a partir daí passou a haver uma maioria dos portugueses a pensar que a coligação ia ganhar. Parece impossível que essa mudança de percepção tivesse ocorrido sem as sondagens. Logo, a possibilidade de que essa percepção tenha mudado intenções e comportamentos, que tenha afectado a capacidade de mobilização e a coesão dos partidos e/ou que tenha modificado a cobertura da campanha não pode de todo ser descartada. Mas é preciso investigar em que direcções esses efeitos terão ocorrido, e se houve uma direcção predominante. Vai ser difícil. Mas palpites não chegam.

by Pedro Magalhães