Pedro Magalhães

Margens de Erro

Presidenciais: sondagens divulgadas até 16 de Janeiro

Posted January 16th, 2016 at 12:26 pm4 Comments

Presidenciais 16 jan 16 Inclui a sondagem da Eurosondagem divulgada ontem.

by Pedro Magalhães

As transferências de voto de 2011 para 2015

Posted January 15th, 2016 at 9:36 am4 Comments

No âmbito da Infraestrutura das Atitudes Sociais e Políticas dos Portugueses (IASPP) financiada pela FCT (RECI/IVC-SOC//0476/2012), resultado de uma colaboração institucional entre o ICS, o ISCTE, e o ISCSP, foi realizado um inquérito pós-eleitoral a uma amostra representativa da população residente no Continente. O inquérito foi feito pela GfK Portugal, tem uma amostra de 1499 inquiridos, escolhidos aleatoriamente em 105 pontos de amostragem no país, eles próprios aleatoriamente seleccionados com estratificação por NUT II e habitat. Foi aplicado entre 17 de Outubro e 7 de Dezembro. Teve uma taxa de resposta de 45%. Nesta pasta, encontram o questionário, um relatório metodológico e a própria base de dados. Fica aqui enquanto não terminamos as mudanças no nosso site que permitirá o alojamento desta informação. O questionário acolhe a totalidade do módulo 4 do Comparative Study of Electoral Systems, parte do questionário do Comparative National Elections Project, e um conjunto adicional de perguntas específicas a Portugal, para permitir comparabilidade com inquéritos anteriores (este é o quinto, depois de 2002, 2005, 2009 e 2011) e medir aspectos específicos às eleições portuguesas. Trabalhei neste projecto com a Marina Costa Lobo, a Edalina Sanches e o João Tiago Gaspar.

A distribuição da pergunta sobre recordação de voto/abstenção no inquérito foi a seguinte (entre parêntesis, desvio em relação aos resultados eleitorais no Continente): PaF 26.4% (+4.3), PS 25% (+6.3), BE 7.1% (+1.2), CDU 7.9% (+3.0), Outros 1.9% (-2), BeN 3% (+.9), Abstenção 29.2% (-13.2). Nota-se portanto uma subestimação da abstenção, habitual nestes inquéritos, mas cuja magnitude real não conhecemos, dado que os resultados oficiais não são eles próprios fiáveis, devido à abstenção técnica. A distribuição de votos foi a seguinte: PaF 37.3% (-1.0), PS 34.6% (+2.1), BE 10.1% (-0.2), CDU 11.1% (+2.8), Outros 2.7% (-4.0) e BeN 4.3% (+0.6). Por outras palavras, PS e CDU sobrestimados, PaF e BE subestimados, Destes desvios, apenas os que existem em relação à captação dos "Outros" e da CDU estão acima do que seria "autorizado" estritamente do ponto de vista do erro amostral. Seja como for, para lidar este problema, construí um ponderador que, aplicado a todas a análises, corrige estes desvios.

A primeira coisa para onde fui olhar foi para as transferências de voto de 2011 para 2015. O inquérito tem uma pergunta sobre comportamento de voto em 2011, e cruzando-a com o comportamento de voto em 2015 é possível fazer uma matriz de transferências. Há riscos neste exercício. Por um lado, a memória é falível e selectiva, especialmente em relação a um evento ocorrido há mais de quatro anos. Por outro lado, com percentagens consideráveis de pessoas que recusam responder quer à questão do comportamento de voto em 2011 quer à de 2015 (277 em 1499 não nos quiseram dizer se votaram e em quem votaram em 2015, por exemplo), estes fluxos têm margens de erro importantes associadas e, nalguns casos, há células com muito poucas observações. Mas assumindo o risco, aqui vai (ignorei todos os fluxos menores ou iguais a 0.5% da amostra):

Unknown Este diagrama (já agora, chama-se "diagrama de Sankey", e fi-lo usando as funcionalidades deste SankeyMatic) mostra várias coisas:

1. A maior parte das perdas dos partidos da PaF em relação a 2011 foram para a abstenção, detectando-se também perdas (bastante menores) para o PS e para o BE.

2. O PS vai buscar votos a anteriores abstencionistas e, em muito menor grau, ao PSD e ao CDS em 2011, mas esses ganhos mal compensam as saídas de seus anteriores votantes para a abstenção e, em menor grau, para o BE e para a PaF.

3. O eleitorado da CDU mantém-se em grande medida estável: perde um pequeno contigente para a abstenção, vai buscar o equivalente a não-votantes de 2011.

4. O Bloco tem uma ligeira perda para a abstenção, largamente compensada pela capacidade de manter a maior parte dos seus eleitores de 2011 e por ganhos junto de não-votantes de 2011, antigos votantes dos partidos da PaF e, especialmente, votantes no PS em 2011.

Onde é que os partidos da PaF perderam eleitorado? O que impediu o PS de crescer, nomeadamente indo buscar mais anteriores abstencionistas e anteriores votantes no PSD ou no CDS? De que é feito este crescimento do BE, e que tipo de eleitores foi buscar aos outros partidos e anteriores abstencionistas? Vou tratar estes temas em três posts futuros.

by Pedro Magalhães

“As sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal”

Posted January 14th, 2016 at 2:06 pm4 Comments

Mais um caso de alguém que não se sabe se acredita ou se apenas diz que acredita. Francisco Louçã afirma que "as sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal", e comprova (ou ilustra) dizendo que "a sondagem que é publicada mais regularmente afirmava, uma semana antes das eleições legislativas, que o PS estava à frente e que o Bloco ia baixar". Mas isto não cola. Por um lado, não há qualquer sinal de que "as sondagens se enganem cada vez mais em Portugal". A haver sinais, são os opostos: o número de anos passados desde 1991 até 2009 têm um coeficiente negativo na sua relação com o desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições:

Screen Shot 2016-01-14 at 13.47.18 Por outro lado, mesmo que se presuma que Louçã se refere a uma tendência recente, também não se consegue discernir uma "tendência" nas legislativas ou nas presidenciais. E comprovar essa tendência recorrendo a uma sondagem de 21 de Setembro (a duas e não uma semana das eleições), a última sondagem publicada que colocou o PS à frente da PaF, e da única empresa que o fez desde pelo menos Agosto, também não me parece certo. Em suma, mais "wishful thinking".

Já as observações sobre as dificuldades especiais nas presidenciais talvez se apliquem (mas no argumento usado apenas nas eleições onde o presidente é candidato), mas isso é outra questão.

by Pedro Magalhães

Hinos de campanha

Posted January 14th, 2016 at 12:42 pm4 Comments

Os hinos partidários e de campanha são uma tradição que se está a perder mas merece todo o nosso carinho. Infelizmente, o seu impacto no comportamento eleitoral está por explorar: mais uma lacuna na nossa investigação. Mas não faltam bons exemplos passados. Vejam este medley, por exemplo, e o irreprimível entusiasmo que se detecta na primeira fila:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=LjVYJZXz6LQ[/embed] Ou o hino do CDS, salvo erro por Dina:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=M1q7ppbBnRg[/embed] O clássico dos clássicos, A Carvalhesa, imediatamente reconhecível (sem letra porque, já se sabe: inflexibilidade estratégica mas flexibilidade táctica):

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=g-KdKuxZDL8[/embed] "Está na hora", no fundo o que seria se o saudoso Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta decidisse fazer uma mistura entre Ska e Kurt Weil e não soubesse cantar nem tocar instrumentos musicais:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=U4JbHEqBIN8[/embed] Ou ainda "É do Costa que o nosso povo gosta (o povo merece, vota PS)", que se comenta a si próprio:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=zFKcDqwfzfA[/embed] Noto por isso com preocupação que há poucos hinos nestas presidenciais. Contudo, há pelo menos três candidatos que não desiludem:

Henrique Neto, com "Presidente Independente":

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=HscqOIxAXcU[/embed] Paulo Morais, com o breve e directo "Vota Morais":

[embed]https://youtu.be/qZvs2aJZJhg?t=2m47s[/embed] Sampaio da Nóvoa, nem precisa de título:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=gXtixER1-Bc[/embed] Surpreende-me que Vitorino Silva não tenha hino de campanha propriamente dito, tendo em conta este precedente:

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=1HC9dxcqF0A[/embed] Sei que é preciso poupar, o país não está para devaneios, queremos campanhas sérias e modestas. Mas toda a gente gosta de música e é preciso mobilizar o povo. Depois queixem-se da abstenção.

by Pedro Magalhães

“Marcelo acredita que eleitores já sabem se vão votar e em quem”.

Posted January 13th, 2016 at 3:40 pm4 Comments

Aqui. Não sei se acredita ou se diz acreditar, mas vejamos o que se sabe:

1. Em eleições legislativas, há uma parcela significativa de pessoas que decidem se vão votar e em quem relativamente tarde. Ou pelo menos é o que elas próprias nos dizem, nos inquéritos pós-eleitorais, que terá sucedido: 9% em 2002, 17% em 2005, 10% em 2009 e 9% em 2011 decidiram na última semana. E isto é em relação ao total de eleitores. Em relação ao total de pessoas que realmente votaram, em 2011, foram 20% os que dizem ter decidido a sua escolha na última semana (e mais ainda em 2005). Logo, por aquilo que as pessoas nos dizem, há uma parcela não irrelevante delas a decidirem tarde. Isto não quer dizer que estas decisões sejam suficientes para mudar o curso de uma eleição: se estas decisões tardias tiverem uma distribuição exactamente igual à das decisões precoces, nada muda. Mas isso não acontece exactamente assim, pelo que sabemos.

2. Outra maneira de olhar para o assunto é através das sondagens. Estamos a 11 dias da eleição, certo? Basta ler o artigo do Miguel Maria Pereira para ver a quantidade de coisas que pode acontecer a 11 dias de uma eleição. A 11 dias da reeleição de Cavaco em 2011, ainda havia sondagens que lhe davam acima dos 60%. A 11 dias da sua eleição em 2006, o seu score médio nas sondagens era de 58%. A 11 dias da reeleição de Sampaio, todas as sondagens lhe davam mais de 60%. Etc.

Há muito caminho para andar, e os precedentes não são favoráveis ao candidato "favorito", pelo que se percebe o "wishful thinking" de Marcelo.

by Pedro Magalhães

Sondagens presidenciais

Posted January 11th, 2016 at 12:56 pm4 Comments

Nova sondagem da Aximage, numa eleição onde tem havido muito poucas. As que conheço com o menu final de candidatos. A bold, resultados após redistribuição de indecisos.

presidenciais jan 16 Olhando apenas para as sondagens da Aximage, tendência de descida de Marcelo, descida de Belém, recuperação de Nóvoa. Olhando para todas, muita dispersão nos resultados de Marcelo. Esta semana sei que teremos Eurosondagem, veremos que mais aparece...

P.S.- Corrigido com a ajuda do @FHenriques: faltava a última da Eurosondagem.

by Pedro Magalhães

Portuguese presidential election polls

Posted December 11th, 2015 at 8:06 am4 Comments

Very few so far, at least with the definitive roster of candidates:

presidenciais 11 dez

Marcelo Rebelo de Sousa, probably the best known politician in the country who does not currently hold any major office (he has been a political pundit on television for 15 years, after having presided over the PSD, which he joined very early on, in 1974), has a huge advantage over everybody else, with most recent polls giving him well above the 50% majority he needs to avoid a second round. He's endorsed by the parties on the right.

More data from the Catholic University poll out today:

ng5388416 Marcelo (the colloquial first name treatment is common in his case, although journalists call him "Professor") gets almost every single voter of the parties on the right, but he also makes serious inroads in the electorates of the major parties on the left. For an hypothetical second round, any of the major opponents is equally pulverized.

I wouldn't be surprised if these polls end up representing the high mark of Marcelo's bid for the presidency. Things are bound to become more complicated as the campaign progresses. Partisans and partisanship will be activated, and Marcelo has to debate the other candidates, which may lead to him being asked actual questions (so far, journalists have treated him with the reverence due to a senior colleague). But he remains, by very very far, the favorite.

by Pedro Magalhães

Sondagens presidenciais, actualização

Posted December 10th, 2015 at 1:24 pm4 Comments

Do que consigo retirar das notícias — por vezes a informação não é absolutamente clara, e os depósitos na ERC estão muito atrasados — eis as três sondagens divulgadas até ao momento com o menu estabilizado de candidatos: sondagens presidenciais Os resultados a negrito são após redistribuição de indecisos, seja a apresentada pela empresa seja a feita por mim (presumindo que se redistribuem proporcionalmente pelas opções válidas). Permanece um enorme contraste entre as duas empresas, e nada muda de significativo nas sondagens da Aximage.

O estudo da Aximage tem mais informação potencialmente interessante, nomeadamente no cruzamento entre intenção de voto em legislativas e a intenção de voto nas presidenciais (o texto do artigo fala em "eleitorado que votou no BE nas legislativas", mas não pode ser, porque aparecem distribuições para o CDS e para "indecisos", e quem eu saiba não há indecisos em relação a comportamentos passados). Infelizmente, sem saber a dimensão das sub-amostras por partido, não é fácil saber o grau de incerteza dessas distribuições, que deve ser muito alto nos partidos mais pequenos. Para além disso, não se percebe em relação a quê são calculadas estas percentagens. A coluna do PSD soma 93,3%, a do CDS soma 49,7%, a do BE 72,4%, sinceramente não decifro isto, desculpem, talvez alguém que leia este post possa ajudar. Sem perceber o que é isto, não comento.

by Pedro Magalhães

Sondagens para as presidenciais

Posted November 23rd, 2015 at 11:04 am4 Comments

Que me tenha apercebido, com o menu de candidatos mais ou menos definitivo, temos apenas duas (2) sondagens. Uma foi realizada pela Aximage, com o trabalho de campo a terminar no dia 4 de Novembro e uma amostra de 603 inquiridos. Outra foi realizada pela Eurosondagem, com o trabalho de campo a terminar dia 18 de Novembro e uma amostra de 1510. Há muitas sondagens anteriores, todas úteis à sua maneira, mas com candidatos que acabaram por não o ser (Rui Rio, Jerónimo de Sousa) ou faltando-lhes outros (Edgar Silva, Marisa Matias).

O que dizem estas duas sondagens?

1. Que não há indicações claras sobre se Marcelo tem mais de 50% das intenções de voto válidas: 48% para a Eurosondagem e 64% (depois de redistribuídos indecisos e votos em branco proporcionalmente pelos votos válidos) para a Aximage.

2. Que não se sabe quem tem mais intenções de voto à esquerda. Na Aximage, Nóvoa tem 17% contra 15% de Belém. Na Eurosondagem, Belém tem 19% contra 17% de Nóvoa.

3. Que não se sabe o peso dos restantes candidatos: 4% para a Aximage, 16% para a Eurosondagem.

Em suma, grande incerteza sobre vitória à 1ª volta, grande incerteza sobre quem iria a uma 2ª volta, grande incerteza sobre o peso dos restantes candidatos.

Como compara isto com o passado? 2006 talvez seja o melhor ponto de comparação, dado serem eleições onde, tal como nestas, não concorria o presidente em exercício. Em Novembro de 2005, foram divulgadas cinco sondagens, da Eurosondagem, da Marktest, da Católica, da Aximage e da Intercampus. Cavaco Silva aparecia com valores entre os 53% e os 57% nesse mês, mas no resto da campanha persistiram sondagens com resultados num intervalo bastante amplo, entre os 63% da Gemeo/IPAM (logo no início de Dezembro) e os 52% da Eurosondagem em Dezembro e da Católica nas sondagens finais de Janeiro, sendo que a vitória de Cavaco à primeira volta foi, como se recordarão, ainda mais apertada (50,5% dos votos; com menos 29758 votos teria havido 2ª volta).

Como também se recordarão, a questão Alegre vs. Soares só se começou a resolver nas sondagens da última semana, e Jerónimo de Sousa teve um resultado melhor do que qualquer sondagem lhe concedeu. Em suma, há muito caminho para andar até ao dia 24 de Janeiro.

by Pedro Magalhães

Estabilidade governativa

Posted October 22nd, 2015 at 5:02 pm4 Comments

Têm sido apresentado muitos argumentos sobre a conveniência desta ou daquela solução governativa. São de três tipos. O primeiro toca questões de "legitimidade". É legítimo que o governo seja liderado por um partido que tem menos deputados que outro no parlamento? É legítimo um governo de direita quando a maioria no parlamento é de esquerda? O segundo toca questões de preferências sobre políticas e suas consequências. Preferimos que o país seja governado assim ou assado, com estas ou aquelas presumíveis consequências? O terceiro toca questões de "estabilidade". Que solução garante mais estabilidade governativa?

Queria falar apenas sobre este terceiro ponto. Há uma bibliografia enorme e bastante sofisticada sobre isto: que características de governos e de sistemas políticos estão mais associadas a governos estáveis, e quais fazem com que um governo tenha maiores riscos de cair antecipadamente? Muita dessa bibliografia não se nos aplica: é sobre a maneira como os primeiros ministros marcam eleições estrategicamente, mas por aqui os PM's não têm esse poder. Quanto a outros factores, especialmente desde este paper de King e colegas (1990), julga-se saber que:

1. Governos maioritários duram mais tempo que governos minoritários.

2. Quanto maior o peso de partidos extremistas num sistema partidário, menos tempo duram os governos.

3. Quanto mais fragmentado o parlamento, menos tempo duram os governos.

4. Se não tiverem de ser sujeitos a investidura — à necessidade de aprovação do programa por maioria absoluta — os governos duram mais tempo (presumivelmente porque há menos que caem nesse momento, o que não quer dizer que os que sobrevivem sob um sistema de investidura não sejam até mais duráveis).

A referência mais importante que se segue é provavelmente Diermeier e Stevenson (1999), que introduzem, entre outras coisas, uma distinção entre dois tipos de risco a que qualquer governo está sujeito: o de cair devido a uma dissolução do parlamento e convocação de eleições e o de ser substituído sem eleições. A mensagem principal é que os processos que proporcionam um tipo de queda de um governo não são exactamente os mesmos que proporcionam o outro e, substantivamente, para além de se confirmar o efeito importante que o carácter maioritário ou minoritário dos governos tem nas suas chances de sobrevivência, Diermeier e Stevenson detectam que a diversidade interna das coligações do ponto de vista ideológico é um factor que diminui o seu tempo de vida expectável, favorecendo, neste caso, a sua queda através de sua substituição sem eleições.

Mais recentemente, há uma referência que beneficia muito do caminho trilhado pelos textos anteriores, Schleiter e Morgan-Jones (2009), que mostram que:

1. O risco de um governo minoritário cair, seja por dissolução seja por substituição, é cerca de 2 vezes superior ao de um governo maioritário.

2. Governos monopartidários, em democracias mais antigas, e onde está presente o partido do eleitor mediano estão sujeitos a um menor risco de serem substituídos por outros sem eleições.

Outro trabalho, de Saalfeld (2009), sintetiza muitas das conclusões anteriores. Finalmente, este vosso criado e o Jorge Fernandes mostramos, num artigo acabadinho de sair, e entre outras coisas, que muitas destas conclusões se continuam a aplicar quando olhamos exclusivamente para regimes semi-presidenciais, que presidentes com poder de dissolução discricionário aumentam o risco de governos caírem por dissolução (daaah) e que presidentes com poder de demissão discricionário aumentam o risco de um governo ser substituído, sem eleições, por outro liderado por um partido diferente.

Assim, que lições úteis podemos retirar da literatura para a nossa situação concreta?

  1. Que apesar do facto de não termos investidura facilitar a formação e sobrevivência de um governo, governos minoritários estão sujeitos a um risco maior de terminarem antes do tempo que governos maioritários.
  2. Que governos onde não esteja presente o partido mediano estão sempre sujeitos a um risco maior de terminarem antes do tempo. Traduzindo, em Portugal, isto milita contra a estabilidade de um governo minoritário onde não esteja o PS. Miguel Galvão Teles, com a sabedoria de quem não precisa de estatísticas, chamava a atenção para o problema dos "governos minoritários descentrados", aqueles que enfrentam maiorias absolutas ou à sua direita ou à sua esquerda (este último o problema de um governo PSD/CDS nas actuais circunstâncias).
  3. Mas governos compostos por uma coligação onde estejam partidos muito distanciados ideologicamente estão também sujeitos a um maior risco de caírem antes de tempo. Em Portugal, o posicionamento esquerda-direita dos partidos tal como medido através dos seus programas partidários, retirado do Manifesto Projecto Database), mostra em 2011 uma crescente polarização ideológica no sistema, e há boas razões para crer que tenha aumentado. Mesmo que as coisas não tenham mudado muito, PSD e CDS estarão presumivelmente próximos um do outro, PS e PSD menos, CDS/PSD/PS aumenta ainda mais a distância entre os potenciais parceiros e PS/PCP/BE mais ainda.
Screen Shot 2015-10-22 at 12.17.17 Em suma, a situação eleitoral criada a 4 de Outubro é inimiga da estabilidade governativa em quase todas as soluções possíveis que consigo imaginar. Se tapamos um lado do corpo com a manta (governo coeso PSD/CDS) destapamos outro lado (minoritário e sem o partido pivotal). Se puxamos para tapar outra parte (um governo majoritário PS/BE/PCP) destapamos outra (três partidos ideologicamente distantes num mesmo governo). Se o tornamos menos diverso ideologicamente (PS sozinho) destapamos outra parte (minoritário, com parlamento mais fragmentado e polarizado do que no passado recente). Etc.

Reforço que nada disto tem a ver com a conveniência ou não da adopção destas ou daquelas políticas por parte deste ou aquele governo (isso são contas muito importantes mas de outro rosário) nem com questões de "legitimidade" (eu diria que a legitimidade resulta fundamentalmente do respeito escrupuloso pelos procedimentos, mas há quem tenha outras opiniões). Nem sequer pressuponho que a estabilidade seja o valor único ou sequer principal que deve contar. Mas se queremos falar de estabilidade, há investigação, com conclusões sólidas e, diria, bastante previsíveis e lógicas. Elas sugerem, por diferentes razões, que o caminho para uma qualquer solução de governo que possa emergir do processo actual em Portugal e que não comporte riscos conhecidos e grandes para a estabilidade governativa é apertadíssimo, para não dizer inexistente. C'est la vie.

by Pedro Magalhães